Masculinidade além das novas aparências

Todo mundo sabe que uma reação exagerada e sem sabedoria a um extremo perigoso pode levar a outro extremo perigoso. Essa regra quase perfeita da vida é estampada de forma clara em nossos debates políticos atuais. No meio desse movimento de extremos encontramos a questão da masculinidade. O ativismo feminista atual tem desmanchado a masculinidade e influenciado um afastamento de características fundamentais do homem. A própria cultura pop coloca os holofotes no feminino e em homens cada vez mais desfigurados. Confesso que é difícil de aguentar. Me pego pensando qual identidade de homem o mundo tentará ensinar para o meu filho. É realmente preocupante. E concordo que devemos entrar numa batalha contra cultural nesse ponto. Mas em que trincheiras devemos lutar?

Infelizmente muitos estão entrincheirados num extremo perigoso do nosso lado da batalha.

Chamaria essa trincheira de “masculinidade caiada”, em referência a identificação dos fariseus como sepulcros caiados (Mt 23:27). A ideia de Jesus em relação aos fariseus é a de pessoas com boa aparência religiosa, mas mortos e imundos por dentro. Não quero ser tão duro quanto Jesus, mas apontar para o perigo de se reagir ao feminismo ao criar um padrão único de masculinidade que deve ser seguido por todos os homens cristãos. Isso pode levar à dois problemas: (1) viver por aparência e (2) desconsiderar o diferente.

Em primeiro lugar, quando um padrão externo único é criado e recebe muitos holofotes, pessoas acreditarão que basta se enquadrar em tal padrão para ser homem. O caráter e o coração vão perdendo espaço se não forem destacados da mesma maneira. Em segundo lugar, quando esse padrão externo é colocado sozinho no altar da masculinidade, homens passarão a cobrar total conformidade a ele, validando ou não a verdadeira masculinidade. Eu já ouvi, por exemplo, que vídeo game não é coisa de homem, mas de menino. Já vi pessoas querendo uma barba para parecerem mais homens. Já li argumentos de que deveríamos nos vestir como antigamente, com calças mais folgadas e camisas sociais mais frouxas (desculpe, mas eu prefiro calças e camisas slim). Será que essas coisas provam mesmo a masculinidade verdadeira? Claro que não. Por mais que as atividades e vestuário de um homem importem, nunca se tratou somente de aparência externa.

Até quando vamos reduzir masculinidade a essas coisas?

Você pode ter a barba mais irada do mundo e ser um menino. Masculinidade não tem a ver com pelos, mas com coragem. Você pode jogar vídeo game e ser um grande homem. Masculinidade não tem a ver com sua habilidade com jogos, mas com seu respeito para com as mulheres. Você pode usar terno e gravata e ser um menino, como pode usar camisas de filmes e ser um grande homem. Masculinidade tem mais a ver com honra e nobreza do que com ternos ou camisetas.

Você pode ter tatuagens e piercings e ser um homem de verdade. Masculinidade não se define pela falta desses elementos na pele, mas pela presença de integridade no coração. Você pode fazer artes marciais e atirar no clube de tiro, mas ainda ser um meninão. Ser um grande homem não depende de atividades isoladas, mas de toda uma vida usando a força a serviço do bem.

Com bom senso e sabedoria bíblica é possível ser homem de modos muito diferentes.

Me entenda por favor. Eu tenho barba, gosto de armas, tenho tatuagem e amo artes marciais. São todas coisas boas que eu não rejeito de forma nenhuma. Mas elas precisam estar acompanhadas da masculinidade bíblica que flui de Jesus. Ele é o nosso padrão, não a caricatura masculina que os antifeministas criaram. A Bíblia nos chama para portarmo-nos com varonilidade em 1 Coríntios 16:13. O contexto fala de coragem, força e amor. Douglas Jones ofereceu uma boa definição dessa verdadeira masculinidade:

“A reunião de todas aquelas características que fluem do deleite e sacrifício da força física em prol da bondade” (Futuros Homens. Editora Clire)

No mesmo livro, Douglas Wilson lista um perfil bíblico da masculinidade. Para ele, os homens devem ser senhores (domínio da criação), agricultores (criar e produzir), salvadores (proteger e livrar), sábios e portadores de glória. Para viver dessa forma Wilson afirma que homens de verdade devem se corajosos e aventureiros, pacientes e trabalhadores, devem odiar o mal e desejar combate-lo. Devem desejar aprender com os sábios e devem querer estar sempre cultuando a Deus, pois são sua imagem e glória.

O padrão de Jesus, o conceito de Paulo, a definição de Jones e o perfil de Wilson podem ser vividos com ou sem barba. Jogando ou não vídeo game. Com uma Glock ou uma panela na mão. Com camisas sociais do século passado ou com belas estampas da Marvel. Comendo churrasco de javali ou salada no McDonald’s. Homens possuem liberdade dentro dos padrões bíblicos para serem homens de verdade no estilo que quiserem. O padrão barba-armas-lutas não é o único padrão que existe. E mesmo que muitos homens estejam precisando de várias dessas coisas (encorajo a todos a treinarem algum tipo de arte marcial, defesa pessoal com ou sem armas e esportes de contato), devemos lembrar que qualquer padrão único de homem que construímos a parte da revelação disponível em Jesus é idolatria.

Considere isso e sejamos todos homens de verdade para a glória de Deus.

Autor: Pedro Pamplona

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