O que aprendi com os “amigos” de Jó

O livro de Jó é riquíssimo, e permite muitos olhares sobre Deus, a vida, a morte, o sofrimento, etc. Ah, esqueça a paciência, pois com certeza essa não era a principal característica de Jó, leia o livro todo que isso fica muito claro.

Nesse rápido texto, quero compartilhar com vocês algumas coisas que aprendi com os “amigos” de Jó. Eles refletem muito nosso jeito de aconselhar e nossa postura diante do sofrimento.

Segundo o relato bíblico, ao saberem dos acontecimentos em torno da vida de Jó, os amigos Elifaz, Bildade e Zofar, saem, cada um de sua região, para se encontrarem e juntos irem para Uz, afim de serem solidários. Ao chegarem onde Jó estava, perceberam como era grande seu sofrimento, choraram em alta voz, rasgaram suas roupas, colocaram terra sobre a cabeça[1] e sentaram com Jó em silêncio (2.11-13).

Eles começaram bem! Tiveram atitude e foram em direção ao amigo, se compadeceram e partilharam a dor, a ponto de ficarem sete dias em silêncio, deveriam ter ficado de boca fechada…

Depois desse longo período de silêncio, Jó abre a boca e põem pra fora toda sua indignação, raiva, angústia. Sente-se injustiçado e beira a blasfêmia, Deus é o alvo de seus questionamentos. Na verdade, me parece que Jó só queria desabafar, compartilhar o que se passava em seu interior, e quem sabe onde ele mais precisou dos amigos, foi onde eles falharam.

Os discursos de Jó não são ortodoxos, afrontam ideias fixas e vão contra princípios básicos do relacionamento entre a humanidade e Deus, conforme a sabedoria vigente. E os amigos de Jó, defensores desses princípios, não suportam as palavras de Jó, abrem a boca e se perdem em discursos.

Será que temos que falar no momento da dor alheia? E pior, julgar dizendo que a pessoa tá assim porque fez escolhas que a levaram a esse ponto? Por que não conseguimos colocar e misericórdia na frente da ortodoxia? Aqui, não falo para abandonarmos os princípios, mas para sabermos o momento certo de expô-los, pois palavras certas ditas na hora errada só causam mais danos.

Esses amigos também se achavam detentores da verdade, pensavam estar fazendo a coisa certa. Mas depois o próprio Deus os censura. Seus discursos enlatados não atenderam os dilemas da vida Jó. Assim somos nós muitas vezes, seguimos cartilhas prontas e achamos que se serviu pra um vai servir para o outro. Dessa forma, nos atropelamos nas palavras e passamos por cima do outro.

Devemos entender que muitas vezes aconselhar é ficar quieto, somente ouvir. Pois no próprio ato do desabafo a pessoa se encontra. Deixemos nossos conselhos cheios de moral e sabedoria para outro momento, por hora, ofereçamos somente um bom ombro amigo.

Por @bibotalk

 


[1] Rito de penitência e principalmente luto.

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  • Show Bibo.

    Um outro ponto sobre o livro de Jó, como John Piper disse, é que é um livro cheio de má teologia. Há muitas sutilizas com cara de verdade – sofismas -, mas quando analisados mais a fundo, vê-se o quanto o trio de amigos era equivocado. Até começavam bem, mas as conclusões dos pensamentos deles desviavam da realidade de Deus.

    Abraço!

  • Bibotalk

    falei isso para os alunos, muitas pessoas utilizam os argumentos dos amigos e se esquecem de que esses foram censurados pelo próprio Deus. São discursos desconectados da própria vida.

    É interessante notar também, como os discursos de Jó desafiam alguns pensamentos do livro de Provérbios e Salmos, que representavam a sabedoria corrente em Israel.

  • isaque

    Muito bom, o livro de jo e uma prova de que recebemos tanto o mal quanto o bem de Deus,independente daquilo que a gente faz

    • A questão é que Tiago é um dos livros menos pregados nas igrejas e, talvez, o menos lido pelo povo de Deus.Caso contrário não se veria tantos mexericos e fofocas. As pessoas, ao que parece, gostam de falar sem medidas e soltar o verbo na hora errada e de uma maneira errada.

  • saverio bruno

    Sinto muito nas não concordo com o que você disse a respeito da paciencia de Jó.
    Partindo do princípio que Tiago foi inspirado por Deus, e por isso, a sua carta se encontra nas Escrituras, a hermenêutica me ensina a fazer a seguinte pergunta: Com que intenção o autor usou a expressão “hypomene” no contexto em que o mesmo usa Jó como exemplo de paciência?

    O vocábulo grego “hypomene” significa: persistência ou tolerância.

    Vamos examinar o contexto e verificar em que sentido o autor usou essa expressão:

    1. O autor exorta a igreja a ser paciente até a vinda do Senhor (Tg. 5.7). A paciência aqui tem o sentido de SUPORTAR(tolerância) uma situação de injustiça e ESPERAR (persistência) a vinda de Cristo, de acordo com os textos (Tg. 5.1-6).

    2. O autor usa como ilustração o agricultor como exemplo de alguém que espera com paciência, isto é, alguém que está esperando o tempo das chuvas (Tg. 5.7). A paciência aqui
    retrata alguém que SUPORTA o sofrimento enquanto ESPERA o tempo das chuvas.

    3. O autor pela segunda vez ordena a igreja a ser paciente, pois a vinda do Senhor está próxima, razão pela qual a igreja deveria esperar em meio aos sofrimentos da vida (Tg. 5.8). Posso afirmar que aqui está o âmago do contexto, onde o autor deixa claro para os seus leitores que a segunda vinda de Cristo deve ser a causa da nossa paciência, ou seja, ESPERAR E SUPORTAR OS SOFRIMENTOS até a vinda de Cristo.

    4. O autor instruiu a igreja a evitar as queixas, pois o Juiz já está às portas, dando com isso a ideia de que a igreja deveria SUPORTAR as falhas alheias e ESPERAR o julgamento divino.

    5. O autor usa também os profetas como exemplos de paciência, ou seja, homens que SUPORTARAM as perseguições dos seus compatriotas (Tg. 5.10) e que ESPERARAM a justiça de Deus (Tg. 5.11b).

    6. E por fim, o autor usa Jó como terceiro exemplo de alguém que SUPORTOU o sofrimento e esperou a justiça de Deus (Tg. 5.11), bom pelo menos é o que posso concluir quando o autor diz sobre o fim que Deus lhe proporcionou, isto é, dando em dobro tudo o que ele perdeu (Jó 42.10).

    O que eu acho interessante é o comentário que Deus faz a respeito de Jó para os seus amigos depois que Jó disse tudo que disse. Vejamos:

    “Depois que o Senhor disse essas palavras a Jó, disse também ao Elifaz, de Temã: “Estou indignado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como FEZ MEU SERVO Jó. Jó 42:7, e tem mais:

    Vão agora até meu servo Jó, levem sete novilhos e sete carneiros, e com eles apresentem holocaustos em favor de vocês mesmos. Meu servo Jó orará por vocês; eu aceitarei a oração dele e não farei com vocês o que vocês merecem pela loucura que cometeram. Vocês não FALARAM o que é certo a meu respeito, como FEZ meu SERVO Jó”. Jó 42:8
    O texto bíblico deixa bem claro que Deus aprovou o que Jó falou.

    O que foi que os amigos de Jó falaram que não agradou a Deus, e o que foi que Jó falou que Deus aprovou, já que alguns argumentam que ele falou tantas coisas que podem passar a idéia de que ele foi impaciente?

    Talvez o que chama a atenção de muitos comentaristas e estudiosos da Palavra de Deus seja o fato de Jó ter falado tantas coisas para Deus e sobre Deus. Entretanto, o que chamou a atenção de DEUS, e isso é o que tem relevância em todo o livro de Jó, foi o fato de Jó ter sofrido e ter falado muitas coisas, mas depois de ouvir a voz de Deus, reconhecer a soberania de Deus (Jó 42.2), confessar que falou coisas que não entendia (Jó 42.2b), recitar o que Deus falou (Jó 42.3), dizer que estava enxergando Deus diante do sofrimento e depois de ouvi-lo (Jó 42.4), e por fim se humilhar e se arrepender do que fez ainda em sofrimento.

    É importante ressaltar que toda essa experiência que Jó teve com Deus foi em meio ao sofrimento. O sofrimento dele só terminou depois que ele ouviu a voz de Deus e orou pelos seus “amigos” (Jó 42.10)

    Bom, pra mim alguém que em meio ao sofrimento faz tudo isso que Jó fez, só pode ser paciente.

    Outra coisa que os comentaristas esquecem de falar é que em meio as suas falas, suas crises, suas indagações e suas pré-avaliações, Jó disse:

    “Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra. E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei, com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro! Como anseia no meu peito o coração! Jó 19:25-27

    Peço por gentileza que examinem todo o capítulo 19 e confirmem o que eu disse.

    Então eu pergunto: Será que Jó não foi paciente nos dois sentidos que SIGNIFICA a palavra “hypomene”, isto é no sentido de suportar o sofrimento (tolerância) e de esperar em Deus (persistência)?

    Eu até concordaria que Jó não foi paciente se não tivesse nas Escrituras os textos Jó 19.25-27; Jó 42.1-8 e (Tg. 5.11).