Justiça Relacional

Você já ouviu falar de Mefibosete? Ainda não?!? Confesso que muitas vezes não dei a devida importância para esta personagem do Antigo Testamento. Mefibosete foi filho de Jonatas, e neto do rei Saul. Mas, o que faz deste camarada alguém relevante para nós? É que Mefibosete foi alvo da justiça de Davi. Como assim? Davi mandou matar ele pelas maldades de Saul? O que aconteceu? Nada disso! Davi mandou que todas as terras e bens de Saul fossem dados à Mefibosete, além disto ele teria direito à comer à mesa do rei. E o que isto tem a ver com justiça? Tudo! Davi foi fiel a amizade que teve com Jonatas, pai de Mefibosete, e ao se manter fiel, mesmo após a morte de Jonatas, Davi é considerado justo (Confira esta história em 2Samuel 9).

Justiça (tsedaqa em hebraico) é essencialmente um conceito relacional, entre dois seres, não se refere à relação entre uma idéia e um objeto (VON RAD, Teologia do Antigo Testamento, p.359-372). Exemplificando: Eu contrato alguém para fazer um serviço para mim, e combino pagar R$100 reais para ele. Porém na hora do pagamento eu lhe pago apenas R$50, pois achei que o serviço não foi tão bom. Neste caso eu sou injusto porque paguei menos? De acordo com esta forma de compreender a justiça não, eu sou injusto porque quebrei a confiança num relacionamento entre duas pessoas. No nosso pensamento moderno, eu seria considerado injusto por ter descumprido uma regra, uma ideia. O fato é que eu deveria pagar R$100, porém só paguei R$50. No nosso pensamento, eu fui injusto em relação à ideia do consenso inicial.

Pode parecer que dá na mesma, pois em ambos os casos estou sendo injusto, porém o fato é que um conceito relacional de justiça implica em um comprometimento pessoal com a outra pessoa. Enquanto que um conceito jurídico de justiça implica apenas em um comprometimento com um conceito ou ideia, que são abstratos. Não há espaço para amor, não há espaço para solidariedade. O que importa é o cumprimento ou descumprimento do conceito jurídico.

Num conceito de justiça relacional o que mais importa é manter-se fiel para com o meu semelhante. Se for fiel com meu semelhante então não intentarei mal contra ele, antes buscarei ações afirmativas em benefício do nosso relacionamento. A justiça relacional pode até ser “desigual”, do ponto de vista da justiça jurídica, pois vai oferecer maiores benefícios para quem precisa mais, e menores benefícios para quem precisa menos. A justiça relacional pode não ser uma justiça equitativa, mas é uma justiça de compromisso com o bem do outro. O alvo desta justiça não é a riqueza, o bem-estar, mas o Shalom (Is 32.17). A paz Shalom não é uma paz de espírito, nem uma paz como ausência de guerra. Shalom significa estar completo. Isto tanto no nível pessoal, como relacional com Deus e o meu semelhante. Não há Shalom interno! Não há Shalom onde há guerra, não há Shalom onde há fome e desigualdade, não há Shalom onde há famílias desestruturadas (Jr 6.14). Por isto Shalom também é um conceito realizável escatologicamente (Is 32.15; Jo 14.26-27). Porém, permanece o alvo e o fruto da justiça relacional.

A justiça relacional é a justiça de Deus, é uma justiça que não é baseada na Lei, mas em uma promessa de salvação. A justiça de Deus me torna justo não por meu merecimento, mas por causa da fidelidade de Deus em cumprir a promessa feita em Jesus Cristo. No encontro de Deus, em Jesus Cristo, com o ser humano pecador acontece a justificação. Não porque o ser humano mereça, mas porque Cristo deseja imputar tal justiça a nós. Jesus Cristo nos coloca numa relação de fidelidade. Agora não preciso mais me esconder de Deus porque Ele é fiel para perdoar meu pecado (1Jo 1.9). Por isto o justo vive pela fé, ou pela fidelidade (Rm 1.17 / Hc 2.4). Mefibosete pode viver por causa da fidelidade que se mostrou na justiça de Davi. Para nós é possível viver da fidelidade de Deus, pois Ele permanece sempre justo para conosco.

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