Deus odeia o pecado, mas ama e odeia o pecador

Autor: Paulo Cesar Antunes

É comum em debates os envolvidos tomarem extremos opostos. Aconteceu nos grandes embates teológicos da história: Agostinho versus Pelágio e Lutero versus Erasmo.

Um caso mais moderno e popular diz respeito ao cliché “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Em resposta, alguns tomam o lado oposto: “Deus odeia o pecado e o pecador!”

Há verdades e mentiras de ambos os lados. Eles estão certos no que afirmam e errados quando sugerem que Deus sente, exclusivamente, amor ou ódio pelo pecador.

Ambas as posições se apoiam em versículos bíblicos, que, se lidos isoladamente, parecem invalidar a posição oposta.

A verdade é que Deus odeia o pecado, mas ama – e odeia! – o pecador. A ideia pode parecer ininteligível a alguns, mas ela somente nos mostra o quanto, em muitos aspectos, somos diferentes de Deus.

Após a citação de inúmeras escrituras, A. H. Strong diz,

“Essas passagens mostram que Deus ama as pessoas que ele detesta. Ele detesta o pecado, mas ama o pecador; ele tanto ama quanto detesta o pecador; o detesta quando ele é um vivo e voluntário antagonista da verdade e da santidade; o ama quando ele é uma criatura capaz do bem e arruinado pela sua transgressão.” Teologia Sistemática, Vol. 1, pp. 510, 511.

D. A. Carson diz o mesmo,

“Não há nada intrinsecamente impossível sobre a ira e o amor serem levados simultaneamente ao mesmo indivíduo ou povo. Deus, em suas perfeições, certamente fica irado contra os rebeldes que, a despeito de levarem sua imagem, o ofendem; não obstante, mesmo, em suas perfeições, o Senhor é ser amável para os rebeldes que levam a sua imagem, porque ele é este tipo de Deus.” A Difícil Doutrina do Amor de Deus, pp. 73, 74

A maior prova desta surpreendente verdade temos na morte de Cristo. Nela, Deus mostrou tanto o seu ódio pelo pecado quanto o seu amor e ódio pelos pecadores.

Referências bíblicas:

Deus sente amor pelos pecadores:

Sl 145:9 – O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras.

Jn 4:11 – E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive em que há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a esquerda, e também muito gado?

Mt 5:44-48 – Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. […] Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.

Jo 3:16 – Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

1Jo 4:8 – Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.

Deus sente ódio pelos pecadores:

Lv 20:23 – E não andareis nos costumes dos povos que eu expulso de diante de vós; porque eles fizeram todas estas coisas, e eu os abominei.

Dt 25:16 – Porque é abominável ao Senhor teu Deus todo aquele que faz tais coisas, todo aquele que pratica a injustiça.

Sl 5:5 – Os arrogantes não subsistirão diante dos teus olhos; detestas a todos os que praticam a maldade.

Sl 11:5 – O Senhor prova o justo e o ímpio; a sua alma odeia ao que ama a violência.

Pv 11:20 – Abominação para o Senhor são os perversos de coração; mas os que são perfeitos em seu caminho são o seu deleite.

Pv 16:5 – Todo homem arrogante é abominação ao Senhor; certamente não ficará impune.

Pv 17:15 – O que justifica o ímpio, e o que condena o justo, são abomináveis ao Senhor, tanto um como o outro.

Deus sente amor e ódio pelos pecadores:

A escolha de Israel foi motivada pelo amor (Dt 7.8), mas diante dos seus pecados, “Deus se indignou, e sobremodo abominou a Israel”, Sl 78:59. Quando a nação havia acabado de sentir os horrores de estar debaixo da ira de Deus, ela escuta dele que “com amor eterno te amei”, Jr 31.3, o que significa que, mesmo quando debaixo de sua ira, Deus nunca havia deixado de amar Israel.

As outras nações eram abominação ao Senhor, e por isso ele as expulsou de diante de Israel, mas quando um estrangeiro se encontrava no meio desse povo, ele devia ser amado, uma vez que “o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas” igualmente “ama o estrangeiro”, Dt 10.17-18.

Mesmo os “vasos da ira, preparados para a perdição”, Deus suporta “com muita longanimidade” (Rm 9.17), ou seja, dando-lhes oportunidade de arrependimento.

Os judeus incrédulos, distintos do “remanescente segundo a eleição da graça”, Rm 11.5, a quem “Deus lhes deu um espírito entorpecido, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, até o dia de hoje” (Rm 11.8) são os mesmos que, “quanto à eleição, [são] amados por causa dos pais” (Rm 11.28).

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  • Willian Rochadel

    Interessante visão e creio que o sentimento de ódio é terrível, portanto não podemos “antropotizar” Deus a partir desse sentimento.
    1 João 3:15: “Qualquer que odeia a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.”

  • Alcino Júnior

    Ótima reflexão!

  • Guilherme Cancella

    Essa problemática se dá por tentarmos definir sentimentos como sendo aplicados somente como os são em nós. Sendo que Deus é bem maior…

  • Victor

    Eu me lembro de ter essa visão do ódio ao pecador no livreto do Paul Washer “Verdadeiro Evangelho”. Tem um capítulo somente sobre isso baseado em Salmo 5.5. Na época eu aceitei meio sem pensar mas refletindo, posteriormente, vi que não fazia muito sentido com a maior parte das reflexões sobre o amor de Deus que já vi, nem com o testemunho bíblico. Pelo menos em parte. Esse artigo veio a calhar. É extremamente comum nas reflexões teológicas não só colocarmos Deus com os sentimentos semelhantes a nós, como adotar sempre os extremos em relação a qualquer coisa divina. Creio ser esse o caso em todas as controvérsias teológicas da história da igreja. Isso eu realmente não entendo! Porque Deus não poderia amar algumas coisas e odiar outras? Ele sempre tem que amar tudo ou odiar tudo?? Porque Ele não poderia ser soberano em algumas coisas e deixar outras sem estar totalmente sob Sua soberania, quase sempre exaustiva?? Já vi pessoas dizendo que Deus só leva pessoas a Cristo por meio da pregação, porque é isso que a bíblia diz. Por que? Porque Ele não poderia levar pessoas a Cristo pela pregação, por sonhos, visões?? Porque Deus não poderia adotar posturas “calvinistas” com umas coisas e posturas “arminianas” com outras?? (Já cogitei até nisso..rsrsrs) Ele (ou a teologia) teria que ser uma ou outra?? Complicado colocar Deus dentro de nossos anseios e cosmovisões. E o pior é que isso é um dos motivos de tantas desavenças entre cristãos. Cada um tem sua “caixinha de Deus” que, logicamente, é a única certa!