ROMANOS 9, VASOS E PREDESTINAÇÃO

“Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para HONRA e outro, para DESONRA? Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os VASOS DE IRA, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em VASOS DE MISERICÓRDIA, que para glória preparou de antemão.” Romanos 9:21-23, ARA.

O capítulo 9 da Carta de Paulo aos Romanos tem sido fonte de inúmeros debates e embates entre calvinistas e arminianos. Em linhas gerais, alguns creem que a passagem supracitada revela que Deus cria ou elege determinadas pessoas para a salvação e outras para a perdição. Longe de querermos em um pequeno texto tratar sobre todos os elementos do capítulo 9, focaremos o núcleo da discordância: versos 21-23.

Pressupostos: amor de Deus, justeza de Deus e soberania de Deus.

a) Vaso para honra e vaso para desonra:

Consideraremos, obviamente, que o termo vaso é uma metáfora para indivíduos ou grupo de indivíduos. O vaso de oleiro tinha grande importância na vida doméstica na antiguidade. Não existiam Tupperware’s na época. Tanto as joias mais finas e caras quanto o lixo da cozinha (para não dizer coisa pior), eram acomodados em vasos. Neste contexto, Paulo fala de vasos para honra e vasos para a desonra.

A palavra grega aqui traduzida como desonra é atimia(ἀτιμία, ας, ἡ), a mesma utilizada em II Timóteo 2:20: “Ora, numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para DESONRA.” II Timóteo 2:20, ARA.

O verso seguinte (21) mostra que o contexto é de utilidade ao evangelho. Diz que “aquele que se purifica dos erros, será UTENSÍLIO para honra, santificado e ÚTIL ao possuidor.” II Timóteo 2:21.

Parece claro que os termos “honra/desonra” se referem à utilidade do objeto, não à condição de salvação ou perdição do mesmo. Se aplicarmos o mesmo raciocínio a Romanos 9:21, entenderemos que o vaso de honra/desonra está mais para a sua utilidade na missão do que para a sua condição diante do juízo divino. A ótima tradução da Bíblia de Jerusalém corrobora este entendimento: “O oleiro não pode formar da sua massa seja um utensílio para uso nobre, seja outro para uso vil?”

Uso nobre de um lado; uso vil ou uso COMUM de outro.

Parece que há uma conotação a respeito da função do vaso. Deus em sua soberania escolhe aqueles a quem quer utilizar em sua sagrada missão de resgate da humanidade. Não pode Deus escolher alguns para desempenhar funções extraordinárias em sua obra, ao tempo em que escolhe outros para funções ordinárias? Sim. Uns para uso nobre; outros para uso comum. Vale lembrar que Paulo está em uma espécie de “defesa de Deus” quanto à sua justeza por eleger Israel.

OUÇA ESSE PODCAST SE QUISER AMPLIAR O ASSUNTO

b) Vasos de ira e vasos de misericórdia:

Se consideramos válido o entendimento acima, deparamo-nos com um problema nos versos 22 e 23, em que Paulo cita “vasos de ira preparados para a perdição” e “vasos de misericórdia preparados de antemão”.

Note que Paulo já não usa mais os termos “honra/desonra”, mas “ira/misericórdia”. Talvez Paulo tenha mudado o sentido da metáfora, porém aproveitando o mesmo objeto. Talvez agora esteja fazendo (como faz no capítulo todo) uma referência ao Antigo Testamento, especificamente ao “cálice da ira de Deus”, ou seja, aos juízos divinos (Isaías 51:17, Jeremias 25:14 e outros). O Apocalipse de João também faz estas referências (Apocalipse 14:10, 16:19).

Se assim for, o que está preparado para a perdição são os juízos de Deus e não os seres que são objeto de Seu amor. Nesta linha, segundo Paulo, Deus suportou (e ainda suporta) pacientemente os seus juízos sobre a humanidade. E qual o objetivo desta espera paciente de Deus? O verso 23 responde:

“a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão.”

Assim, a paciência de Deus é para que os destinatários do conteúdo do vaso da ira de Deus conheçam as riquezas de sua glória guardados em vasos de misericórdia (graça). Paulo chama o cálice da ceia de “cálice de bênção” em 1 Coríntios 10:16. O salmista em momento de júbilo diz que tomará do “cálice da salvação” em Salmos 116:13.

Fazendo sentido a linha argumentativa acima, em sintonia com outros textos, parece que não há que se falar em predestinação para a salvação ou perdição baseado nos vasos de Romanos 9, mas em um amor que a tudo suporta a fim de resgatar a ovelha perdida.

Willian Wheeler Erthal

twitter: @wwerthal

Categorias: Reflexões,Textos,Variedades

Tags: ,,,,

  • Waldomiro Neto

    Com todo respeito ao escritor do texto, penso que houve uma certa “exegese forçada” para se chegar as conclusões que se chegou. De toda forma espero que o Senhor derrame Sua sabedoria em nós para que possamos entender da melhor maneira a escritura.

    Soli Deo Glória.

  • Fradimar de Souza

    Dizer que vasos de perdição são os juízos de Deus deve até pesar a consciência heim. Cara me diga que isso não é fruto de algum comentário sério, meu Deus!