Redenção

E se Deus chamasse alguém para em nome da paz e da esperança de algumas crianças, botar a mão na massa e nesse caso, não só na massa, mas também em metralhadoras, você acreditaria? Pois bem, por mais estranho e paradoxal que seja, essa é a vocação de Sam Childers, apelidado de Machine Gun Preacher ou Pastor Metralhadora, história real que você conhece um pouco no filme Redenção.

Na trama acompanhamos Sam, interpretado por Gerard Butler, abandonando as drogas, os furtos e tudo que envolve esse mundo, após ter um encontro com Deus. Sam logo percebe que fé é ação, e o que era para ser um trabalho voluntário na África acaba se tornando um envolvimento político no Sudão, onde rebeldes devastam vilas e recrutam crianças para sua causa. E a partir daí o bicho pega.

Sam decidi agir para ajudar essas crianças, correndo atrás de fundos, para a construção de um orfanato, e atrás de rebeldes, afugentando-os com sua metralhadora. Todo esse envolvimento gera crises familiares e de consciência, pois Sam acreditava ter deixado para trás sua natureza assassina.

Recomendo o filme, vale como diversão e também levanta umas questões interessantes, como chamado, capitalismo, prioridade, ética, família, etc.. Algumas delas passo a comentar abaixo, só lembrando, que esses comentários terão SPOILERS, então leia por sua conta e risco! Se já assistiu ao filme, junte-se a mim nos comentários, compartilhe sua impressão.

É interessante ver um cara que estava vivendo uma boa vida, afinal Sam tornara-se empresário, aceitar o desafio de fazer trabalhos voluntários na África, não ir lá somente bater fotos ao lado de crianças negras e colocar na internet, mas ajudar em construções e no que for preciso. E ainda por cima, querer se aprofundar nesse trabalho se envolvendo em questões políticas e perigosas. Esse desprendimento de Sam me lembrou dos primeiros discípulos, que se levantavam e seguiam o Mestre. É louvável ver um ser humano abandonando sua zona de conforto em prol de uma causa realmente relevante. Ele foi muito prático, seguindo uma lógica simples: precisam de mim e eu posso ajudar. Esse princípio pode ser aplicado a todos nós, talvez não tenhamos condições de ir à África, mas com certeza existe alguma necessidade no mundo compatível com meus talentos, logo, aí está o meu chamado.

Porém, na história do Sam existem alguns agravantes, pois ao atender de forma radical esse chamado ele deixa sua família em segundo plano, esposa, filha e amigo ficam desamparados, levantando a pergunta, seria isso necessário? Atender o chamado de Deus pra minha vida exclui minha família? Fora o fato dele vender seus bens para investir no orfanato. A princípio parece uma atitude nobre e bíblica, porém, penso que nossa família vem antes do nosso chamado. Deixa eu explicar. No caso do Sam, só ele estava com essa pegada de ajudar as crianças no Sudão, a família ainda não. E a ruptura na história dele foi muito radical. Penso que nossa família deve fazer parte do nosso chamado, com apoio e envolvimento. Sam hoje mora na África com as crianças e a esposa cuida da igreja que eles montaram nos EUA. Seria o ideal um casal viver assim distante um do outro, por causa de um chamado? Tenho minhas dúvidas…

Mas a principal questão que o filme levanta em minha opinião, é a atitude agressiva de Childers com os rebeldes, que são mortos ao tentarem recrutar as crianças e queimar suas vilas. Mesmo que seja, quem sabe, a única forma efetiva de enfrentar a situação daquele lugar, a postura de Sam viola diretamente o sexto mandamento (ouça nosso podcast sobre esse mandamento). Ele enxerga isso como ministério dado pelo próprio Deus. Algo parecido com o que os EUA fazem com seus inimigos, se julgando agentes de Deus para purificação da maldade. Essa postura até se encaixaria numa sociedade do Antigo Testamento, mas diante do NT, essa postura desmorona.

A situação é melindrosa, é verdade, afinal sem matar os rebeldes não tem como trazer paz e esperança para aquelas crianças, visto os acordos políticos não terem sucesso. O “ministério” do Pastor Metralhadora me lembrou dum grande teólogo do século passado chamado Dietrich Bonhoeffer que inconformado com as injustiças praticadas por Hitler, entra num movimento de resistência, tentando inclusive matar o Führer. Mas a diferença drástica entre os dois é que Bonhoeffer tinha consciência de que estavam praticando algo contrário as Escrituras. Para ele matar Hitler era uma coisa má, porém, um mal menor, comparado a todo mal que ele fez com os judeus e outros.

Enfim, não quero me alongar muito, mas estou ciente de que a discussão pode ir muito longe. Mas finalizo dizendo que acho errado o que Sam Childers faz, porém, se eu fosse uma daquelas crianças?

Se quiser conhecer um pouco mais do trabalho desse pastor, leia essa entrevista, clique aqui.

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  • Cléverson Hasse

    Já assisti o filme e achei interessante, o filme te prende a saber o que vai acontecer, até porque ele podia morrer a qualquer hora, sendo que é baseado em uma história real.
    Algumas coisas também não concordei além das sitadas já acima em seu comentário, acho que Sam realmente estava indo num caminho bom no inicio, mas ele se perde pela causa, a raiva, irá dentro dele o deixa sem paz, os soldados não tem mais confiança em suas batalhas e as crianças começam a ficar com certo medo dele.
    No filme, o que mais me impacto mesmo foi o menino que não falava nada e conta a história dele, foi a parte mais triste e comovente eu acho.
    Uma coisa que nos faz pensar durante o filme como o próprio Sam fala em uma citação: “Se seu filho ou filha fosse raptado e eu tivesse a chance de traze-lo de volta, você se importaria com a forma que eu iria traze-la de volta?”, isso me lembra a frase de Maquiavel onde ele diz: “Os fins justificam os meios”, acho que não é bem por ai que Deus quer que agimos, com nossas próprias mãos, a qualquer custo, pois usar o nome de Deus em guerras é o que muitos estão fazendo por ai.
    Enfim, como o bibo disse, assista ao filme para você também tirar suas próprias conclusões.
    Abraço.

    • Bibotalk

      Fala mano, legal teu comentário por aqui. Forte abraço.

  • marcio roberto scussel

    o filme nos leva a pensar em cituações criticas, a qual não vivenciamos, mas no lugar de Sam o que fariamos? paz bibo e um abraço.

    • luís Neves

      Acho que só você entendeu o filme.

  • Anna

    Nós (acho que por uma questão religiosa) concluímos psicologicamente o certo e o errado.
    Também discordo o fato de Sam ter deixado a família de lado, sou totalmente contra a violência, incluindo a verbal que dirá o uso de uma arma. Mas… e se fosse eu, ou um dos meus sobrinhos no lugar daquelas crianças? Questão que você levantou muito bem.
    Eu cresci em um lar onde cristianismo era se doar, meus pais fizeram do nosso lar um refugio para as pessoas excluídas da sociedade. Vivi muita coisa e vi muitas não tão belas. Mas ainda hoje (fazem 4 anos que não coloco os pés dentro de uma igreja) não sei viver um evangelho diferente deste, pra mim ser cristão é se doar!
    Não acredito nesta igreja de hoje em dia. Não me conformo com as diferenças impostas pelos níveis sociais, pela hipocrisia, distorção da verdade a favor de alguns e o obvio, capitalismo exacerbado.
    Sam Childers usa sim um método agressivo para defender algo nobre, acho sim que existiria outros métodos, mas louvo o dele, pois ele está lá fazendo.
    Todas as pessoas, sem exceção são preciosas aos olhos de Deus, e isso inclui os rebeldes do Sudão e tantos outros.
    Ainda assim, sou mais os Sam Childers e as Madres Calcutás da vida do que milhões de Marcos Felicianos, Silas Malafaias e outras figurinhas endeusadas no meio evangélico de hoje.
    Sabe o que acho curioso, esses caras (Felicianos e Malafaias) só querem holofotes e dinheiro e usam o nome de Deus pra parecer o que não são (o ego destes é maior que a própria vida), quem é de Deus está onde a dor reside. Fazer diferença enchendo o bolso é fácil, quero ver arregaçar as mangas como um Sam Childers da vida.
    Pra mim é um imenso desprazer me deparar com figuras hipócritas, capitalistas, racistas e preconceituosas que alimentam seus “ideais” em nome de Deus, mas que a meu ver é impossível ver Deus neles.
    Ser cristão é se doar, é amar … o amor tem necessariamente que preceder alguém que tem como causa, a causa de Cristo na terra.
    Amar as pessoas e se identificar com as dores delas, independentes de sua cor, raça, crença, status social e opção sexual. Não somos melhores que ninguém, somos todos seres imperfeitos que diariamente tentamos fazer bom uso de nosso livre arbítrio.
    Gostaria muito de ter a coragem de Sam, gostaria imensamente de colocar as necessidades dos excluídos acima das minhas, de fazer a vida deles ser tão ou mais preciosa do que a minha própria!

  • Sam pode até estar errado no que se refere a vontade de Deus,mas ele só quer ajudar crianças indefesas.se as pessoas perdeu o respeito pela vida ,Sam pelo menos protegeu crianças de homens que não sabe o que é amor ao próximo.Se existisse alguns sam por aí, quem sabe as coisas não seriam um pouco diferente.

  • reginaldo ferreira

    eu tomaria a mesma decisão,pois ele não fez isto para se promover,más atendeu o seu chamado!!!

  • luís Neves

    Alguém realmente entendeu o filme? Ele faz o que deve ser feito e é usado por Deus sim. Durante a sua trajetória ele chegou a mudar o seu conceito e quase se tornou um miliciano. O seu objetivo é claro resgatar as crianças raptadas e como ele faz isso? Tira das mãos da pessoas que irão mata-las ou estuprá-las. Como faz para tirá-las das mãos dessas pessoas? Mediante conflito armado, infelizmente. Já assistiram corações de ferro? ou em inglês Fury. Um dos soldados é cristão e tem um propósito(inclusive ele fuma um monte, só que naquela época não sabia que o cigarro era um mal), após ele derrubar o inimigo ele vai ao seu socorro orar por ele e explicar a salvação em Cristo. Sabe qual é o problema do crente achar que tudo tem que ser como ele acha que tem que ser. Eu sou evangélico e sei que fazemos pouquissímo pelo necessitado somos egocentricos achamos que somos sempre os certos baseados em doutrinas e dogmas. A frase que Sam usa é uma alegoria a Jesus. “Um homem faz a diferença”, personagens bíblicos fizeram a diferença, inclusive se eu não me engano Moisés teve que usar a sua espada para poder manter a justiça de Deus entre os hebreus.