Quem tem promessa também morre!

“Há tempo de nascer e tempo de morrer”
É muito frequente no meio evangélico ouvir: “Quem tem promessa não morre!” Essa ideia virou um axioma, isto é, uma máxima que encerra uma verdade indiscutível. Tolice, pois o cotidiano revela o contrário, e torna essa proposição um chavão de pregador que não estuda as Escrituras!
Alair é segundo da esquerda para direita da fileira de cima, ao meu lado
No dia dez de março de 2009, faleceu o missionário Alair Scheidt Junior. Ele foi fazer um concerto no forro do auditório da MEUC – Missão Evangélica União Cristã em Ijuí, e ao levar uma descarga elétrica, não resistiu. Deixou a querida Andréia e a pequena Bia.[1]

Estudei com o Junior na Faculdade Luterana de Teologia. Lembro-me que fiquei surpreso ao ouvir que ele deixou um bom emprego em Blumenau para se dedicar ao estudo e se preparar o ministério. Era um jovem muito prático e que sempre valorizou o trabalho com jovens, essa era a sua marca! Junior com muito esforço passou por todas as matérias ao longo dos quatro anos do curso e foi fazer o que sabia fazer de melhor, liderar e motivar jovens a servirem a Jesus. Nesse período em SBS, não ficou só na teoria, trabalhou com os jovens locais, foi amigo da galera e sua casa sempre estava cheia, era ponto de encontro para conversar, tomar tererê, jogar Uno, comungar a fé, etc.
Com toda certeza Junior tinha promessas de Deus, digo com toda certeza, porque sua vida dava frutos, e isso é prova de que ele estava ligadoem Cristo. Entregou sua vida e sua família a causa do Reino. Mesmo assim, dormiu no Senhor. Existe uma explicação para isso?
Fato é que, diariamente cristãos morrem, sofrem atrocidades, descobrem cânceres, vivem o mal de cada dia. O que alimenta o discurso triunfalista é que Deus quando quer, intervém, como aconteceu na vida do jovem Jaison Batista, que depois de um acidente de carro, tinha 1% de chance de voltar à vida, e se voltasse, tudo indicaria que ficaria com graves sequelas. Jaison se recuperou milagrosamente, hoje caminha, fala, raciocina e testemunha do que Deus fez, e até o momento em que escrevo essas linhas, nenhuma sequela foi diagnosticada.
Qual critério Deus usa para agir ou não agir? Será que ele utiliza algum critério? Como explicar que alguns irmãos são recuperados e outros recolhidos? Eu não sei a resposta, alguém sabe? De uma coisa tenho certeza, Deus é nosso parceiro na construção da história, e lamenta quando um filho seu é fruto de uma fatalidade.
A nós que ficamos aqui, na sala de espera (?), resta-nos orar pelos enlutados, acolher o órfão e a viúva e simplesmente viver, afinal, a morte é parada certa nessa viagem terrestre. Depois dela, Deus será tudoem todos. Aleluia!
“Assim, atribulações e dúvidas não precisam necessariamente fazer a pessoa abandonar a sua fé, mas podem ser expressas dentro do âmbito da fé”.[2]
Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá.” João 11.25


[1] Disponível em: <http://www.sejameuc.com.br/novo/noticias.php?codigo=66> Acesso em 10 de mar de 2009.
[2] SCHMIDT, W. H. A fé no Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal. 2002. p. 359

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  • Sapão – André Luís Oliveira

    Fala Bibo

    na sua opinião, este texto tambem se aplica à música "Deus é Fiel" do Nani Azevedo? (http://www.cifras.com.br/cifra/nani-azevedo/deus-e-fiel)

  • BiboTalk

    Fala Sapão, penso que sim, essa parte da música reflete bem esse conceito.

    • Sapão – André Luís Oliveira

      No caso desta música eu discordo…porque quando ele fala que não vai morrer enquanto Deus não cumprir na vida dele tudo o que Ele tem em mente, eu vejo isso com coerência bíblica, porque muitos personagens bíblicos pediram pra morrer, se escondiam, mas Deus os levantava novamente porque era o que Ele queria fazer. Isto é bíblico e vale pra todos, não vejo como algo triunfalista tal como outras músicas cantam (ex: "profetize e chegará a benção")

      Embora diferente, queria ressaltar esse ponto na minha opinião

  • BiboTalk

    ué, concordar com a música é discordar do texto como um todo. E os que morreram sem ter a promessa cumprida? Hebreus 11…

  • Thiago Dylan

    Bibo, belo texto; contudo, se você me permite dizer, esta frase ficou estranha: "De uma coisa tenho certeza, Deus é nosso parceiro na construção da história, e lamenta quando um filho seu é fruto de uma fatalidade."

    Pensei na hora no teísmo aberto, defendido por Paulo Brabo, Ricardo Gondim e Ed René Kivitz. Desculpe-me se interpretei errado. Mas uma boa dose de soberania divina não faz mal. Filosoficamente falando, creio que Deus está além do contínuo espaço-tempo e, por conseguinte, não só sabe o futuro, como o projetou, sem, contudo, fazer seres autômatos.

    • BiboTalk

      Fala Thiago

      Soa estranho mesmo, mas é quase, mas não é. Mano, eu creio que que vivemos num mundo regido por leis naturais e físicas, criadas por Deus, então, penso que nossa vida acontece em meio a essas leis e por isso podemos sofrer e tals. No meu texto, quando falo que Deus lamenta, só quis enfatizar, que Deus tem sentimentos e sentimentos pessoais (antropopatismo) e que sofre junto conosco e tals, só quis humanizar um pouco, mas sei dos riscos que isso pode incorrer.

      é que no fundo, por mais certo que possa ser, não gosto muito do discurso que tudo está escrito, Deus quis assim e pronto, mas enfatizo, por mais que não goste, sei que ele é Deus e faz o que quer….

      deu pra entender mais ou menos?

      forte abraço mano

  • Thiago Dylan

    Entendi sim, Bibo. Esse suposto antagonismo filosófico e teológico entre soberania divina e responsabilidade humana dá um nó na cabeça. Na matemática de Deus 1 + 1 não dá 2. Nossas mentes não conseguem mensurar isso. Essa parada também do espaço-tempo contínuo é pura física quântica. Os teólogos do Processo têm dificuldades em compreender que Deus está aquém de ambos… a história se dá só pra nós mesmos. Não sou dono da verdade, mas é o que penso.

    A propósito, ficou sabendo do vídeo do Pr. Ed René Kivitz refutando o que diziam sobre si sobre a Teologia do Processo? Pra mim, pela conclusão dele, ficou na mesma… http://vimeo.com/32711679

    Literalmente: "há muita coisa que acontece na história que Deus não gostaria que tivesse acontecido" tira a vontade soberana de Deus do jogo, não acha? Creio que ele fez uma crítica aos calvinistas e seus teólogos, ao colocar como determinismo a crença de que Deus é totalmente soberano. Nem nós calvinistas – a não ser os hipercalvinistas – cremos no "determinismo" puro e simples, de forma a negar a responsabilidade humana e pensar em um futuro inexorável aos cristãos. Pela confusão entre calvinismo e hipercalvinismo, muitos pensam que o ser humano é mero autômato. Talvez interpretei mal as palavras dele, mas é o que penso.