O que é espiritualidade?

A verdadeira espiritualidade reside na santidade do gesto simples do cotidiano. Em Jesus Cristo não há megalomania, grandiosidade, extravagância; há a simplicidade do gesto humano, há ternura e firmeza […] A verdadeira vida cristã não significa sermos mais espirituais, e sim, mais humanos.
 Osmar Ludovico
Não é tarefa fácil conceituar espiritualidade cristã, porém, podemos ao menos perfilar conceitos gerais de espiritualidade cristã. Vamos começar com as palavras do apóstolo Paulo na carta da alegria: “ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor”, Filipenses 2.12b. A obra que Cristo opera em nós não é estática, ela nos impulsiona a um viver diferente. A partir disso, creio que espiritualidade é a manifestação exterior da nossa fé interior. Russel Shedd define espiritualidade como: “a busca e a própria experiência da comunhão com Deus. Inclui a expressão dessa convivência a partir de práticas que agradam ao Criador”.[1]
Ser um cristão espiritual é manifestar a luz de Cristo em amor: com isso saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns ao outros, Jo 13.35, é nascer de novo e viver a partir dessa nova realidade. É ser humano sem a pretensão de ser divino.
Parece-me que esses valores caducaram na igreja evangélica brasileira atual, e o cristão espiritual é definido por manifestações exteriores, manifestações essas, que, não brotam de um coração devoto, mas da hipocrisia generalizada pelo emocionalismo e a teatralidade. Nesses moldes, a espiritualidade está encarcerada entre quatro paredes, pintando o seguinte quadro: templos suntuosos apinhado de obesos espirituais, muita bênção, muita pompa, muito teatro, pouco Espírito, pouco testemunho e pouca solidariedade.
Espiritualidade cristã é a restauração de relacionamentos. O pecado destruiu o relacionamento vertical (eu e Deus); o central (eu comigo mesmo) e o horizontal (eu e o próximo), porém, em Cristo, encontramos a ponte para transpormos esse abismo, e encontramos do outro lado o conselho para amarmos a Deus e o próximo como a nós mesmos, logo, a verdadeira espiritualidade só se manifesta onde os relacionamentos são sinceros, onde um considera o outro superior a si mesmo, onde a religião não engessa a ação.[2]
Shedd também fala que:
A espiritualidade deve unir o coração, a mente e a mão, uma idéia amplamente encorajada na Palavra e mantida desde os tempos da igreja primitiva. As três dimensões da vida – o afeto, o pensamento e a ação –, se mantidas em equilíbrio, conduzem a Igreja no caminho seguro do Senhor. O entusiasmo do amor, a disciplina da mente e a ministração das mãos produzem harmonia entre os membros da Igreja dotados dos dons que condizem com essas categorias.[3]
É mediante a ação do Espírito Santo que transformaremos a espiritualidade barata em espiritualidade transformadora, aquela que me confere capacidade e poder para testemunhar do evangelho de Cristo, que me ensina a ser íntegro dentro e fora do templo, que me faz olhar para o próximo e ver nele Deus.

[1] SHEDD, Russell. In: BOMILCAR, Nelson (org). O melhor da espiritualidade brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p. 37.
[2] Na parábola do Bom Samaritano, foram os preceitos religiosos que impediram o sacerdote e o levita de ajudar o necessitado.
[3] SHEDD, Russell. In: BOMILCAR, Nelson (org). O melhor da espiritualidade brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p. 43-44.

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