O QUE É DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO?

Ao longo dos últimos séculos, dispensacionalistas e pactualistas debatem sobre quem tem a melhor estrutura hermenêutica para ler e entender as Escrituras. No meio de toda essa discursão, novas posições vão surgindo à medida que um “ferro afia a outro ferro”.
Uma destas posições é o dispensacionalismo progressivo. Seus defensores tentam aprender com os pactualistas e corrigem o que precisa no dispensacionalismo. Porém, eles ainda se agarram em algumas ideias a respeito das dispensações.
Se você, então, deseja entender toda esta conversa, leia a entrevista abaixo feita com o professor Antônio Neto, dispensacionalista progressivo e professor da Escola Charles Spurgeon. Uma conversa bacana com o Mac e o Victor Fontana que vai ajudar muito em saber as principais características e crenças dos dispensacionalistas progressivos.

O que você vai ler agora é a transcrição do BTCast 224, o podcast de teologia aqui do site (se quiser ouvir, clique aqui). Agradecemos ao ouvinte Marcelo Ferreira que fez a transcrição desse episódio!

O QUE É DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO?

MAC – Pessoal, não sei se este episódio se encaixa na série Plenitude dos Tempos, porque o dispensacionalismo não é necessariamente um tema escatológico, embora o senso comum diga que sim. Entrevistaremos o Antônio Neto, que nos falará sobre o dispensacionalismo progressivo. Ele começará nos mostrando algumas distinções, já que o dispensacionalismo clássico (talvez o adjetivo aqui nem caia bem, melhor seria o “dispensacionalismo que está na boca do povo”) levanta muitas controvérsias. Quando se fala dele no meio acadêmico, o pessoal já torce o nariz. A aversão é automática. O Yago Martins, que também é dispensacionalista progressivo, já havia nos falado dessas dificuldades, mesmo quando se tenta defender algo novo sobre o tema. Não adianta. O dispensacionalismo adquiriu certa conotação pejorativa, como é comum a outros nomes ou conceitos teológicos. E para piorar as coisas e confundir ainda mais àqueles que só conheciam o dispensacionalismo dos Deixados para trás, aparece agora o progressivo. Antônio, tira a gente dessa enrascada.

ANTÔNIO NETO – O dispensacionalismo progressivo, como o próprio nome diz, é uma modificação dentro da tradição dispensacionalista. Gosto de distinguir o dispensacionalismo tradicional do progressivo da seguinte forma: há os dispensacionalistas mais antigos, que são aqueles da bíblia Scofield, defensores de sete ou oito dispensações, que fazem aqueles gráficos bem interessantes; pouco depois, vieram os dispensacionalistas revisados, dos quais fazem parte os famosos Charles C. Ryrie e John F. Walvoord, todo aquele pessoal do Dallas , ali pela década de 60, 70 do século XIX. De toda essa tradição dispensacionalista anterior, a progressiva se diferencia por ver as dispensações como avanços ou progressos dentro dos planos de Deus. Mas segundo os dispensacionalistas mais antigos, as dispensações são como testes divinos pelos quais os homens devem passar. Por exemplo, na Dispensação Adâmica, Deus testa Adão com uma ordem e estabelece um juízo. Uma vez que Adão pecou, Deus dá início à nova dispensação. A atual dispensação também tem um teste, uma ordem e um juízo que é a tribulação futura. Depois dessa tribulação, inicia-se nova dispensação, a do Milênio. O dispensacionalismo progressivo rompe com essa visão, influenciado pela teologia bíblica europeia e pela teologia do reino de George Ladd, autor do monumental Teologia do Novo Testamento. Dessa forma, os progressivos procuraram corrigir todos os excessos dos dispensacionalistas tradicionais, vendo os planos divinos como algo unificado. A Bíblia apresentaria então um centro unificador, que é o avanço do Reino de Deus, e cada dispensação é um progresso das conquistas divinas durante o Seu plano.

MAC – Então o dispensacionalismo progressivo contrasta com o clássico que, dependendo do teólogo dispensacionalista, acredita em cinco ou sete dispensações. É isso?

ANTÔNIO NETO – Sim. E se você for ler os principais livros dos dispensacionalistas progressivos, seus autores nem sequer abordam a questão do número de dispensações. Para eles isso é irrelevante. A maioria dos progressivos que eu conheço, entre eles professores meus, defendem basicamente três dispensações: uma primeira, antes de Cristo; a atual, entre as duas vindas de Cristo; e a dispensação futura, depois de Cristo. E na verdade essa crença se assemelha à de muitos aliancistas que entendem que a Bíblia fala apenas de uma antiga e de uma nova dispensação. Para o dispensacionalista progressivo o mais importante é entender que Deus tem um plano unificado, que avança na História. E essa visão promove uma série de mudanças na tradição dispensacionalista. Por exemplo, na ideia de que Deus tem um plano para Israel e outro para a Igreja. Os progressivos não defendem essa ideia, pois creem que o plano unificado de Deus abrange tanto judeus quanto gentios. Isso quer dizer que a Igreja e os judeus estão inclusos num único plano divino. A partir dessa concepção, nota-se o quanto o dispensacionalismo progressivo se afasta do tradicional, ao mesmo tempo em que se aproxima de outras tradições, como a aliancista e a teologia na nova aliança. Creio que essa foi a principal mudança promovida pelo dispensacionalismo progressivo.

MAC – Inclusive ele foge daquele aspecto do dispensacionalismo clássico…Clássico ou tradicional, Antônio?

ANTÔNIO NETO – Você pode chamar de tradicional.

VICTOR FONTANA – Há os dispensacionalistas mais clássicos, aqueles do Scofield e do Darby, que são mais apegados às divisões em dispensações e àqueles mapas absurdos. Mas, a partir da década de 50 do século passado, surgiram os revisionistas, aquele pessoal do Dallas Theological Seminary. Mas de qualquer maneira, a diferença entre um Charles Ryrie e um Scofield não é tão grande quanto à diferença deles a Darrell Bock, que é um progressivo.

AN – Perfeito. Por isso que a minha sugestão é distinguir os dispensacionalistas em tradicionais e progressivos, embora a diferença entre eles esteja em alguns detalhes. Os tradicionalistas dizem que Deus tem um plano para o povo da terra e outro para o povo do céu. Aí vieram os revisionistas e trocaram o “povo da terra” por “Israel” e o “povo do céu” pela “Igreja”. Um plano divino distinto, o tempo da Igreja como um parêntesis, a ênfase no pré-tribulacionismo e no pré-milenismo – tudo isso faz parte da tradição dispensacionalista. Os progressivos rompem com todos esses pontos. E, por conta disso, segundo os alguns tradicionais, os progressivos não podem ser considerados dispensacionalistas. A alguns amigos, que são progressivos ou se alinham com esse pensamento, sugeri até a ideia de uma nova denominação para a corrente aqui no Brasil. Isso porque o termo dispensacionalismo no Brasil já está tão desgastado que, basta mencioná-lo, e mesmo com o adjetivo progressivo, o pessoal já faz cara de aversão. Então alguns desses amigos têm sugerido o nome “pré-milenista futurista”. E professores do seminário onde estudei preferem ser chamados de “os da escola do Ladd”, o que não muda lá muita coisa. Por isso que insisto nos termos tradicional e progressivo. E mais uma sugestão: coloquem dentro dos tradicionais toda essa turma – os clássicos, os revisados, os “desrevisados” etc. Tudo de ruim do dispensacionalismo pode colocar dentro desse pacote. Fiquem à vontade. [risos]

VF – A esse respeito, acho importante pontuar uma coisa. Concordo que, devido ao próprio nome, o dispensacionalismo progressivo carrega dentro de si uma identidade próxima da tradição dispensacionalista. Mas ainda assim, segundo o que percebo, quando olhamos para a teoria e para hermenêutica, o dispensacionalismo progressivo se aproxima mais da teologia pactual. Pelos menos no método e não nas conclusões. E assim posso entender o porquê do estranhamento dos dispensacionalistas tradicionais em relação aos progressivos. É que esses últimos tocaram nos alicerces do dispensacionalismo. Por exemplo, a questão de Israel. Nesse ponto os tradicionais são irredutíveis.

AN – Você foi perfeito. É exatamente isso. Segundo os tradicionais, a hermenêutica dos progressivos se aproxima da teologia da aliança. Os progressivos não veem dessa forma. Creem, sim, que a sua hermenêutica é uma espécie de interface entre o dispensacionalismo tradicional e a teologia da aliança. Na primeira obra que li sobre o dispensacionalismo progressivo, cujo subtítulo traduzido é Uma inferface entre a teologia dispensacionalista e a teologia não-dispensacionalista, o autor Robert Saucy deixa essa ideia bem clara. No livro, os não-dispensacionalistas são os da teologia do pacto. É como se os progressivos fossem o caminho do meio. O que, em algumas situações, mostra-se como o melhor caminho.

MAC – Ou, em outros casos, são aqueles que ficam em cima do muro. [risos]

AN – De fato algumas posições dos progressivos vão contra a tradição dispensacionalista, ao mesmo tempo em que concordam com alguns pontos do pacto. E vice-versa. É por isso que os dispensacionalistas progressivos são caracterizados por essa interface. Dentro do espectro da teologia bíblica, os progressivos estão bem próximos da teologia da nova aliança. Aqui, no Brasil, já existe uma galera que segue os teólogos da nova aliança sem nem saber. Por exemplo, são da nova aliança o Piper e Carson. É preciso divulgá-la mais no Brasil.

MAC – Ainda com relação à hermenêutica, li em seus trabalhos, Antônio, que existem quatro aspectos a serem considerados: os contextos histórico, gramatical, literário e teológico.

AN – Isso mesmo. Foi uma grande transformação dentro do método hermenêutico do dispensacionalismo com o acréscimo de dois aspectos novos, o literário e o teológico.

VF – E nesse sentido acredito que houve uma aproximação não apenas da metodologia dos aliancistas, mas também daquela que geralmente é aplicada na academia. Então quando se pensa em metodologia não apenas teológica, mas também exegética, está se referindo a todo um conjunto de meios também utilizados por qualquer acadêmico moderno. História, gramática, contexto literário, gênero literário, posições canônicas e as implicações e interpelações entre os vários textos – de tudo isso até mesmo os liberais do método histórico-crítico não abrem mão.

AN – Exatamente. A hermenêutica do dispensacionalismo progressivo resulta de avanços no terreno da interpretação. É só a gente olhar para as obras de Darrell Bock e Craig Blasing (que se Deus quiser serão traduzidas para o português), para notar que elas começam com uma forte abordagem na hermenêutica. E desse modo percebem-se no dispensacionalismo as implicações de muitos princípios da linguística atual e das novas metodologias de leitura e interpretação de textos. Foi como se os avanços hermenêuticos desaguassem no dispensacionalismo. Por isso passamos a ter sensibilidade para abordar outros aspectos, enquanto que muitos dispensacionalistas tradicionais continuam na abordagem histórico-gramatical. Eles ainda concebem os significados como estáveis. Por exemplo, o que é dito sobre Israel, só se refere a Israel. Só se aplica à Igreja, se for uma analogia. Alguém lê então num texto do Novo Testamento Pedro chamando os gentios de raça eleita, sacerdócio real e povo de propriedade exclusiva de Deus, e chega à conclusão de que todas essas expressões foram usadas para Israel. Mas aí vem a pergunta: “Cadê a hermenêutica histórico-gramatical? Por que não foi empregada nesse caso? Sumiu?” Atualmente, e o Vitor apontou muito bem, a galera moderna (a mais ligada da academia) é aberta ao fato de que, quando você se aproxima de um texto, tem que se levar em consideração não apenas o seu contexto histórico e sua gramática, mas também as suas características literárias, principalmente nas questões proféticas. E isso é ainda mais importante quando estamos diante do texto bíblico, que é um progresso de eventos na história da redenção. E nesse caso também devem ser usados o contexto teológico e as posições canônicas. Por exemplo, o Salmo 110 ganha nova perspectiva em Atos 2 quando é interpretado à luz de novos eventos na história da redenção. No caso, a vinda do Messias em duas etapas.

VF – Para aquela pessoa que acaba de ouvir falar sobre o dispensacionalismo, o assunto é complicado. E as coisas pioram quando essa mesma pessoa fica sabendo que há os dispensacionalistas clássicos, os revisionistas e os progressivos. E geralmente o assunto é associado à escatologia. Mas a gente não está discutindo isso aqui. Discutimos aqui como olhar a história bíblica como um todo. Queremos entender a narrativa dessa história: como ela começa; o trabalho divino durante o desenrolar dessa história; e como ela termina. Aí, sim, começa a parte escatológica. Em outras palavras, quando olho para a história bíblica, eu tenho que escolher os óculos com os quais eu a quero enxergar. Posso usar os “óculos” dos dispensacionalistas progressivos, os dos aliancistas, etc. Resumi bem, Antônio, ou você teria outra colocação?

AN – As posições mencionadas por você são chamadas de chaves hermenêuticas. Como você bem disse, são os óculos com os quais iremos nos aproximar das Escrituras. E através das lentes dispensacionalistas entende-se que Deus administra o seu plano através de dispensações. E dessa primeira visão dispensacionalista tradicional, passada pelo crivo de novas lentes, surgiram então crenças distintas. E também foi muito bom destacarmos que o dispensacionalismo não é só escatologia. Quando lemos obras clássicas sobre o dispensacionalismo, não se vê nelas ênfase à escatologia. Um bom exemplo é o livro de Charles Ryrie (Dispensacionalismo hoje) em que a ênfase é dada à história bíblica. Mas reconheço que existe uma espécie de “escatomania” dentro da tradição dispensacionalista. O pessoal é vidrado em escatologia. Viajam o mundo só palestrando sobre isso.

VF – Antônio, eu penso que ainda existem muitas turmas diferentes dentro dos dispensacionalistas tradicionais, seja entre os clássicos ou entre os revisados. Dessas duas vertentes saem outros grupos. Embora eu discorde radicalmente de muitos pontos dos dispensacionalistas, principalmente da metodologia, acredito que existe muita gente séria entre eles, mesmo os que gostam muito de escatologia. Por outro lado, muitos viajam o mundo ganhando dinheiro com especulações futurísticas que nada tem a ver com o dispensacionalismo que a gente lê em livros de pessoas sérias, que têm preocupações acadêmicas. Por isso que é necessário fazer uma distinção. Senão, mesmo os dispensacionalistas tradicionais, acabam adquirindo má fama por causa daqueles que representam as maçãs podres do meio. Esse pessoal que proíbe os outros de comprar com o cartão de crédito, que diz que o código de barra e o chip são a marca da besta, etc.

MAC – Pelo menos o lado bom dessas muitas vertentes foi a popularização do dispensacionalismo, fazendo com a teologia chegasse aos leigos. Só que algumas pessoas, infelizmente, fizeram mau uso dessa popularização. Assim as coisas saem do controle e se chega a extremos. Daí a importância das vozes acadêmicas para fazerem as ponderações em meio aos excessos.
Interessante as colocações do VICTOR FONTANA a respeito do assunto. Mas, ao mesmo tempo, achei isso engraçado. Um presbiteriano tentando desfazer a “confusão” que outros presbiterianos fizeram tempos atrás. [risos] Talvez a galera não saiba, mas o dispensacionalismo surgiu no meio dos presbiterianos. Estou certo, Antônio?

QUANDO SURGIU O DISPENSACIONALISMO?

AN – Sim, você está certo. O dispensacionalismo surgiu das famosas conferências bíblicas e proféticas. Por isso que a força do dispensacionalismo está na exposição bíblica. Na verdade, ele surgiu com o objetivo de ajudar as pessoas a entenderem melhor a Bíblia. Tanto é assim, que a primeira Bíblia comentada foi a de Scofield. Com essa obra e muitas outras publicações, o dispensacionalismo cresceu muito. Mas, infelizmente, o senhor Tim LaHaye resolveu escrever ficção a respeito do assunto. Eu costumo brincar dizendo que o dispensacionalismo é tão legal que até dá para escrever livro e fazer filme a respeito dele. Já a teologia da aliança é tão sem graça, que nem dá para fazer filmes. [risos]

VF – A teologia da aliança produz outro tipo de alegoria. Por exemplo, As Crônicas de Nárnia. [risos]

AN – Aí não. Nárnia é do Milênio. [risos] Voltando para o Tim LaHaye. Ele me inventa de escrever o Deixado para trás, e depois vieram os filmes. Agora passamos a ter o dispensacionalismo da academia e (como ouvi num dos BTCast do Yago) o dispensacionalismo do chão de igreja, onde rola de tudo. Por exemplo, as questões sobre pré-tribulacionismo e o arrebatamento. O que está na boca do povo? A ideia do arrebatamento secreto, e de que a qualquer momento a gente irá sumir e subir, ficando as roupas intactas no lugar onde o arrebatado estava. Aí então haverá acidentes de avião, de carros, e aquele caos todo. Mas isso tudo é ficção. Foi o que, infelizmente, se popularizou. Por outro lado, quando você pega as obras de dispensacionalistas revisados, como as de John F. Walvoord, e as de progressivos, como as de Craig Blaising, você nota o quanto eles defendem de maneira sólida a ideia do pré-tribulacionismo. Eles, sim, merecem respeito e consideração, pois defendem aquilo em que creem não como deslumbrados ou apaixonados, mas baseados numa boa exegética. E fazem isso tão bem que, mesmo os que não acreditam no pré-tribulacionismo, levam a sério os seus argumentos. E outro ponto, MAC: você tem razão quando diz que os dispensacionalistas souberam como conquistar a atenção do povo. Eu me lembro de que, quando era criança, fui discipulado sobre a escatologia do dispensacionalismo. Toda a igreja assistia a vídeos, onde nos era mostrado o mundo se preparando para a chegada do anticristo. Lembro também de num retiro assistir a um filme onde havia um anticristo de nome Nicolau. [risos]

VF – Mas espera um pouco. Quando se fala que o nome do anticristo é Nicolau, a gente corre dois riscos tremendos. O primeiro é achar que o anticristo é o Papai Noel. [risos] O segundo, e mais sério, é achar que uma obra de ficção possa ser utilizada como chave hermenêutica. Ao invés de usarem, em sua exegese, meios próprios do dispensacionalismo, as pessoas acabam usando o filme “Deixados para trás” ou o livro de mesmo nome. E chegou a tal ponto a popularização dessa obra de ficção que até os que não a leram, sabem tanto dela, que é como a tivessem lido. E isso aconteceu no meio evangélico e também no católico.

AN – Olhando por outra perspectiva, eu também alertaria os aliancistas brasileiros, porque estão lendo o dispensacionalismo pelas lentes do Deixados para trás. Conheci inúmeros deles que nem sequer tinham lido as obras básicas do dispensacionalismo. Um dia um aliancista me disse que não receberia um dispensacionalista em sua igreja. O motivo, segundo ele, era que o dispensacionalismo acredita na salvação por meio das obras do Antigo Testamento e, de quebra, tem uma soteriologia arminiana. Mas isso não condiz com a realidade. A tradição dispensacionalista floresceu dentro do calvinismo. Foi o dispensacionalismo brasileiro que assumiu ares arminianos. Mas, em sua origem, ele nunca foi arminiano. Existem muitos equívocos a esse respeito. Eu ouvi o podcast do reverendo Leandro Lima sobre o Amilenismo. Com todo o respeito ao reverendo, mas fiquei me perguntando onde foi que ele leu a respeito do dispensacionalismo. Porque aquele descrito por ele, eu não conheço. Mas em alguns pontos, dou razão a ele, porque acredito que o reverendo estava mencionando esse dispensacionalismo que se popularizou no Brasil. Por isso minha intenção nesta entrevista é trazer para a roda de discussão o dispensacionalismo de fato.

MAC – Colocar os pingos nos is. Fazer as devidas distinções.

AN – Exato.

VF – Constato uma coisa. Por mais paradoxal que pareça, o dispensacionalismo é ainda a corrente dominante na cabeça do brasileiro. Embora as melhores obras do dispensacionalismo não estejam traduzidas para o português. E isso é nevrálgico. Por mais que na academia o pessoal tenha acesso aos textos em inglês, os professores de seminários enfrentam dificuldades para produzir suas ementas devido ao reduzido número de obras. Por exemplo, as obras do Darrell Bock, traduzidas para o português, não são sobre o dispensacionalismo, mas de exegese e um pouco de teologia bíblica. Confesso que quando tive contato com o Bock pela primeira vez, um pouco antes de entrar no seminário, foi através de um livro sobre Jesus. Fiquei me perguntando se ele era ou não dispensacionalista. Infelizmente é uma dificuldade com o qual temos que saber lidar.

AN – E essa dificuldade é de todos nós. Eu sofro muito com os dispensacionalistas tradicionais, devido às publicações que fazem com que o movimento seja tão desprivilegiado. Um dia vi uma publicação no facebook onde se comparava os sete dias da criação com as sete dispensações. [risos] Por causa de coisas desse tipo, dá até vontade de desistir. [risos]

VF – Se a pessoa estava só comparando, a gente pode até tolerar. [risos] Mas há aqueles que impõem, “o sentido é este e pronto!”.

AN – Mas acho que era essa justamente a ideia da postagem. Essa atitude enfraquece o movimento dispensacionalista no Brasil.

VF – Vou polemizar a respeito da heilsgeschichte ou história da redenção. Os adeptos dela, sob a liderança do Ladd, não aceitam ser chamados de dispensacionalistas progressivos. Dizem que esse termo está contaminado. E aí entraremos de novo na escatologia, embora a gente saiba que o dispensacionalismo não é somente isso. Na obra The Meaning of the Millennium (O significado do Milênio) quatro autores se posicionam sobre o Milênio. O George Ladd defende o pré-milenismo histórico; Herman Hoyt, o pré-milenismo dispensacionalista; Loraine Boettner, o pós-milenismo; e Anthony Hoekema, o amilenismo. Nesse livro, Ladd tenta se distanciar do dispensacionalismo, não economizando em suas críticas. Nem Hoekema, um amilenista, criticou tanto o dispensacionalismo nesse livro, quanto o Ladd. Chega até ser engraçado. E as coisas acabam ficando confusas por conta das diferentes metodologias. Do prisma em que a história da redenção acaba se tornando, a gente pode extrair pessoas como os neo-aliancistas, os da teologia da nova aliança, os calvinistas amilenistas como Michael Goheen, proeminente autor histórico-redentivo, cujas obras estão sendo traduzidas no Brasil, entre outros. E ainda assim teremos dispensacionalistas progressivos heilsgeschichte, como é o caso do Darrell Bock.
Antônio, quando você e seus colegas falam da história da redenção e ao mesmo tempo começam a se distanciar do dispensacionalismo clássico, vocês não despertam a ira dos dispensacionalistas tradicionais?

AN – Sim, em certa medida. Darrell Bock escreveu um artigo chamado “Porque eu sou um dispensacionalista”. Nesse artigo, ele lida justamente com o problema mencionado por você. Muitos tradicionalistas afirmam que os progressivos são uma espécie de pré-milenismo do Ladd. Na verdade, da teologia de Ladd, os dispensacionalistas progressivos só mantiveram a distinção entre Israel e a Igreja, mas apenas com relação ao cumprimento das profecias a respeito daquele povo como nação no futuro. E muitos da teologia da nova aliança também pensam da mesma forma. O Douglas Moo, talvez um dos mais famosos defensores da teologia na nova alinça, acredita que ainda existem promessas para a nação de Israel. O Ladd já não pensa assim. Ele deixou bem claro em sua Teologia do Novo Testamento, que Deus deixou a nação de Israel de lado, e desde os primeiros discípulos trabalha com um novo Israel. Mas, ainda segundo Ladd, no futuro haverá uma conversão em massa dos judeus, e não necessariamente a restauração da nação de Israel, com seu retorno a uma terra, etc. Basicamente são essas as modificações que o dispensacionalismo progressivo fez na teologia do Ladd. Abraçamos todo o esquema metodológico da heilsgeschichte que lida com atos redentivos de Deus na História, como também a “ideia do já e ainda não”, ou seja, acreditamos que Jesus antecipou o futuro, trouxe o seu cumprimento para os nossos dias, embora não o tenha ainda consumado. Não partilhamos da crença da tradição dispensacionalita que diz que Jesus adiou o Reino. Segunda ela, quando Jesus veio ao mundo, Ele ofereceu o Reino. E, como este foi rejeitado, Jesus o adiou para cumpri-lo no futuro. E, por isso, atualmente estamos no período da era da Igreja. E com respeito à hermenêutica do Ladd, o dispensacionalismo progressivo possui visão diferente. As palavras dele no livro The Meaning of the Millennium têm toda uma aura do que chamo de “hermenêutica espiritualizante” – o Novo Testamento reinterpreta o Velho Testamento, dando a ele significados espirituais, como é o caso do trono de Davi. Ladd é muito claro em dizer que o trono prometido a Davi para ser cumprido na terra, na verdade foi transferido para céu, e sua natureza é espiritual. Um dispensacionalista progressivo jamais faria uma afirmação desse tipo.

A HERMENÊUTICA DO DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO

MAC – Antônio, vou levantar uma nova questão. Uma camarada se converte. É um leitor comum, não afeito à academia, e começa folhear a Bíblia. De repente, ele lê no Antigo Testamento profecias como a de Isaías 7, que fala de uma virgem que irá conceber o Messias. Se essa pessoa se basear apenas nesse texto, sem as lentes do Novo Testamento, ele não terá nenhum significado especial, muito menos será entendido como profético. Mas tudo mudará quando houver uma leitura paralela do Velho com o Novo Testamento. Isso acontecerá não apenas com o texto de Isaías 7, mas também com muitos outros textos do Velho Testamento. Até agora, abordamos bastante a hermenêutica do dispensacionalismo progressivo. E em alguns materiais que você nos mostrou, é dito que o Antigo Testamento tem prioridade sobre o Novo Testamento e deve estabelecer contexto para a sua interpretação. E essa afirmação é do dispensacionalismo tradicional. Mas, em contrapartida, o Novo Testamento também tem prioridade sobre o Antigo, da mesma forma sendo contexto para esse último. Essa é a posição da teologia da nova aliança. E estou fazendo essas colocações de forma bem resumida. E, como você já disse, o dispensacionalismo progressivo tenta promover um meio-termo entre essas duas posições. Para entender as coisas de maneira prática, eu queria um estudo de caso com um texto específico. Então que texto pode ser colocado sobre a mesa e analisado a partir dessas questões que abordamos?

AN – O melhor texto é Atos 2, onde Pedro fala do trono de Davi. Com esse texto, e de maneira clara, pode-se fazer a distinção da hermenêutica do dispensacionalismo progressivo, tanto da hermenêutica da tradição dispensacionalista quanto a da teologia da nova aliança. Nesse capítulo de Atos, Pedro afirma que Jesus sentou-se no trono de Davi.

MAC – Em Atos 2.30-36, lemos o seguinte: “Mas ele era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que colocaria um dos seus descendentes em seu trono. Prevendo isso, falou da ressurreição do Cristo, que não foi abandonado no sepulcro e cujo corpo não sofreu decomposição. Deus ressuscitou este Jesus, e todos nós somos testemunhas desse fato. Exaltado à direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vocês agora vêem e ouvem. Pois Davi não subiu ao céu, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos como estrado para os teus pés’. Portanto, que todo Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo”.

AN – O que se pode concluir desse texto? O apóstolo Pedro está interpretando alguns textos do Velho Testamento. Um deles é o Salmo 16, em que Davi diz: “porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu santo sofra decomposição.” Ao utilizar as palavras do salmista, Pedro argumenta que Davi não falava de si mesmo, mas sim de Jesus, pois fazia referência à ressurreição de um corpo que não entrou em decomposição. Como à época todos sabiam que Davi não havia ressuscitado, pois conheciam o seu túmulo, o salmista só podia estar falando de outra pessoa. E essa pessoa era Jesus. Por que Pedro achou importante utilizar em seu argumento um texto do Antigo Testamento para mencionar a ressurreição de Jesus? Pedro queria deixar claro para seus ouvintes que, ao ressuscitar, Cristo foi exaltado e elevado ao Seu trono. O salmista referia-se ao cumprimento da promessa divina em colocar um descendente de Davi no trono. E é a partir daqui que são levantadas algumas questões. Segundo o dispensacionalismo tradicional, o trono de Davi no Antigo Testamento é literal e situado em Jerusalém. Então a promessa divina feita a Davi somente será cumprida quando, nos dias atuais, um descendente dele sentar-se em um trono concreto, físico, em Jerusalém. E esse descendente será o Messias. E a respeito da ressurreição, mencionada por Davi, os tradicionais concordam que ela se refere a Jesus, que ainda não se sentou no trono. Essa é a interpretação dispensacionalista tradicional.

VF – Esse é o maior problema do dispensacionalismo tradicional. E seria bom termos aqui um tradicional sério para se defender. Não é legal a gente só falar onde eles estão equivocados. A gente acaba criando algumas caricaturas da posição tradicional. Mas, repito, o problema deles, em passagens como essas que abordamos, é acharem que estão sempre com a razão. Mas, quando começam a exegese, eles constroem tantos nexos “lógicos” entre diversos e diferentes outros textos, que acabam se distanciando do que é dito no texto analisado. E tudo acaba num silogismo que na verdade não passa de um castelo de cartas.

MAC – Mas e a posição da teologia da aliança?

AN – Já vimos que o dispensacionalismo tradidicional acredita que o trono descrito no Antigo Testamento é na terra. Como esse trono ainda não está em Jerusalém, e tampouco Jesus nele se sentou, a profecia não se cumpriu. Já o teólogo da aliança entende que Pedro, em Atos 2, está estabelecendo o contexto com o qual devemos ler o Salmo 110. Em Atos 2.33, 34, Pedro diz: “Exaltado à direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vocês agora veem e ouvem. Porque Davi não subiu ao céu…” Segundo as palavras de Pedro, nesse texto, o trono de Davi está no céu. Baseado nisso, o teólogo da aliança tem o seguinte raciocínio: se Pedro afirma que o trono de Davi está no céu, então quando eu ler o Salmo 110, tenho que entender que no trecho “assenta-te à minha direita” o salmista está se referindo a algo que também aconteceu no céu. Assim, o aliancista crer que as promessas messiânicas do Reino são espirituais e ocorrem no céu. Em seus textos, Ladd, numa interpretação semelhante à aliancista, afirma que o trono terreno de Davi foi transferido para o céu, que há um templo celestial, etc. Mas aí pergunto: Na passagem de Atos 2, Pedro está realmente dizendo como interpretar determinadas passagens do Velho Testamento? O dispensacionalismo progressivo propõe-nos o seguinte exercício: ler o Salmo 110 e entendê-lo no contexto dele; e, segundo passo, compreender a interpretação que o apóstolo Pedro deu a esse mesmo texto na época dos Atos dos Apóstolos. Então, a partir da leitura de Pedro, feita no momento histórico da morte e ressurreição de Cristo, o Salmo 110 ganha novas dimensões. E a mais patente é a celestial. Mas isso não quer dizer que toda promessa terrena feita no Antigo Testamento deva sempre ser interpretada espiritualmente e adquirir significado celestial. Levando-se em consideração esses aspectos, e a interface como posição, o dispensacionalismo progressivo usa a chamada hermenêutica complementar. E por isso mesmo vê no exemplo de Pedro um complemento de um novo referente para a compreensão do Salmo 110. Mas esse novo referente não anula ou reinterpreta o que é dito no Salmo 110 em seu contexto próprio. Portanto, Jesus reina no trono de Davi e também reinará futuramente no seu trono na terra. Mas há no Novo Testamento indícios que apontam existir no Salmo 110 uma dimensão futura? Sim. Em Romanos 11.26, Paulo diz o seguinte: “E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: ‘Virá de Sião o libertador que desviará de Jacó a impiedade.” A frase “virá de Sião o libertador” é uma menção ao versículo 2 do Salmo 110. Conclui-se, então, que Pedro dá dimensão presente ao primeiro versículo do Salmo 110, enquanto que Paulo projeta o segundo versículo como evento escatológico. E mais. Em Atos 3, Pedro também menciona que no futuro haverá a restauração de todas as coisas, e isso, na perspectivas dos primeiros discípulos (de acordo com Atos 1.6) referia-se à restauração de Israel. E de fato é essa a intenção de Pedro, porque ele está falando a judeus.
A partir desses textos, mais uma vez percebe-se que Pedro não está reinterpretando o Salmo 110, encarando-o como literal no passado e espiritual no presente. De maneira diferente, o dispensacionalismo tradicional acredita que o descrito naquele salmo é literal e, até o presente momento, não se cumpriu. Mas, como já foi dito, Jesus morreu, ressuscitou e já se sentou no trono, embora não ainda no contexto de consumação. Essa é a visão dos progressivos. Eles acreditam na vinda do Messias em duas etapas (a primeira já realizada). Em Mateus 25.31 diz-se que o Messias sentará no trono, numa clara menção a um evento futuro.

VF – Antônio, depois de ouvir essas explicações, não tem como não imaginar um dispensacionalista tradicional dizendo: “Viu, não falei? Esses progressivos nunca foram dispensacionalistas.” [risos] A premissa básica do dispensacionalismo tradicional, no caso específico abordado por você, foi completamente descartada, da qual o pessoal não abre mão.

AN – Não me complica, cara. [risos]

VF – Já o aliancista pode concordar, em alguns termos, com você. Ele pode abrir mão de um ponto ou de outro, e se encontrar com a posição progressiva em algum ponto do caminho. E é compreensível a revolta dos tradicionais, diante do que você expôs, e também quando ouvem o Darrell Bock comentando a mesma coisa no texto de Atos. Em outras palavras, do ponto de vista metodológico, o dispensacionalismo progressivo é muito próximo do método que os aliancistas usaram para chegar ao aliancismo e também do dos teólogos da nova aliança. Os resultados podem até diferir em alguns aspectos, mas não na essência. Por exemplo, se Jesus senta-se no trono no Milênio ou em definitivo numa vinda futura – discussão que ocorrerá entre um progressivo e um aliancista, mas nunca entre um progressivo e um tradicional, porque metodologicamente houve entre a posição deles um corte no cerne da questão: literalidade ou espiritualidade. Por isso que quando vejo essa exegese aplicada, entendo porque os dispensacionalistas tradicionais dizem que os progressivos foram longe demais.

AN – De fato, a questão é metodológica. Se houve corte na hermenêutica, cortou-se também a raiz.

VF – É como se os progressivos dissessem aos tradicionais: “Desculpa a gente ter quebrado as pernas de vocês, mas a gente não queria chegar a tanto.” [risos]

MAC – Aí se vê como o pessoal da teologia da nova aliança é gente boa. Eles acabam com a intriga entre os dois irmãos adotivos e gêmeos que brigam entre si (o progressivo e o tradicional), e aliam-se a um deles. [risos]

DISPENSACIONALISMOS PROGRESSIVO X TEOLOGIA DA ALIANÇA

ANTÔNIO NETO – Ouso dizer que o dispensacionalismo progressivo, no debate teológico, ainda tem como principal oponente a teologia da aliança; mas quanto à hostilidade, ela vem por parte dos dispensacionalistas tradicionais. Os teólogos da nova aliança são simpáticos aos progressivos porque estes corrigiram os excessos da visão dos tradicionais. Mas quando o debate se aprofunda em outros textos, como, por exemplo, aqueles que descrevem a relação dos judeus com os gentios ou de Israel com a Igreja, os ânimos entre progressivos e teólogos da aliança se acirram também. [risos] Um outro exemplo. Pregando o texto de 1 Pedro 2.9, o reverendo Nicodemos diz que a referência ali é à Igreja, que é o novo Israel. Dessa forma, ele aplica a hermenêutica da teologia da nova aliança. Mas, como já se sabe, o dispensacionalismo progressivo, diante desse texto, tem diferente ponto de vista. O que foi dito para os judeus, serve somente para eles; quanto ao que foi dito para gentios e judeus, a ambos compete, pois diante da promessa comum mostra-se que eles são coerdeiros e participantes de um mesmo corpo. Mas isso não significa que a Igreja atual seja o novo Israel. Há a distinção entre os judeus e os gentios. Deus não anulou as promessas feitas à Israel. Ser judeu não é algo totalmente irrelevante. Paulo deixa isso claro em Romanos de 9-11: dos judeus vêm os patriarcas, os profetas, o Cristo. E o apóstolo dos gentios finaliza seus argumentos afirmando que os judeus serão restaurados, voltando a ser povo de propriedade exclusiva de Deus, como o é atualmente a Igreja.

MAC – Antônio, você tem algo a acrescentar, e que você faz questão de mencionar?

AN – Seria importante mencionar as implicações do dispensacionalismo progressivo nos eventos escatológicos. Creio que os tradicionais, que porventura lerem essa entrevista, têm essa expectativa. Talvez queiram saber se nós acreditamos ainda em uma tribulação de sete anos, num arrebatamento secreto, etc. Por conta das modificações metodológicas e hermenêuticas, os progressivos concluíram que não é preciso ser pré-tribulacionista. Não concebemos a ideia de que o arrebatamento acontecerá antes da grande tribulação. A lógica por trás da visão dos tradicionalistas é que Deus arrebatará primeiro a Igreja e depois tratará com o povo de Israel. Os progressivos não admitem essa secção no tratamento divino, pois entendem que a Igreja engloba gentios e judeus, ambos herdeiros das mesmas promessas. Já no caso dos dispensacionalistas progressivos que são pré-tribulacionistas, como é o caso do Craig Blaising, eles o são por convicção bíblica, e não por causa de sua teologia. Não é a teologia que os força a acreditar no arrebatamento da Igreja e do posterior tratamento divino exclusivo para com Israel. É através da Bíblia que os progressivos pré-tribulacionistas têm a convicção de que a tribulação futura é o Dia do Senhor e que, como diz Paulo, o próprio Deus resgatará a Igreja antes desse evento. Mas existem progressivos que entendem que o Dia do Senhor é uma parte da grande tribulação, mais especificamente a segunda metade desta. E, por conta disso, muitos deles não são pré-tribulacionistas e divulgam uma posição chamada de pré-ira. Essa posição é uma espécie de pós-tribulacionismo em que a Igreja é arrebatada no momento do retorno de Jesus e do simultâneo derramamento de sua ira. Creio que a pré-ira ainda vai se consolidar aqui no Brasil. E há ainda os progressivos que são pré-milenistas históricos, pois entendem que a Igreja será arrebatada depois da grande tribulação. De tudo isso, depreende-se que os dispensacionalismo progressivo não está preso ao arrebatamento antes da tribulação. Mas, em sua essência e preferencialmente, os progressivos são pré-milenistas. Eles entendem que Apocalipse 20 descreve o Milênio: o cumprimento do reinado davídico pleno de Jesus Cristo com o Seu povo aqui na terra. E durante esse reinado Israel será alvo de todas as promessas feitas no Antigo Testamento, juntamente com os gentios.
E há ainda outros pontos a destacar. Muitos acham que os dispensacionalistas progressivos são necessariamente pós-tribulacionistas. O que não é verdade. Muitos até já me taxaram como tal, quando souberam que eu era progressivo. E com respeito à tribulação e ao que é descrito no Apocalipse, o dispensacionalismo progressivo não é totalmente futurista. Somos chamados de futuristas parciais. O progressivo entende que os eventos mencionados em Mateus 24 e em Apocalipse têm cumprimento futuro, mas também já aconteceram em algum período da história humana.

MAC – O John MacArthur é progressivo ou tradicional?

AN – Em minha opinião, o MacArthur e o pessoal de seu seminário são quase progressivos. Não chegam a usar para si essa denominação, pois eles querem se distinguir apenas na questão de Jesus assentado em Seu trono. Mas essa questão não é sine qua non ao dispensacionalismo progressivo. É aceitável discordar da interpretação de Atos 2, e entender que ali descreve-se Jesus sentado no trono de Davi atualmente e, ainda assim, manter todos os outros postulados do dispensacionalismo progressivo. E é isso que MacArthur e o seu pessoal fazem. Bruce Ware, um calvinista americano famoso, é também um progressivo.

MAC – Há no Brasil algum mainstream ou alguém importante que levante a bandeira do dispensacionalismo progressivo nas redes sociais e outras mídias?

AN – Na verdade, ainda não. Ouvi o Yago no podcast do “Dois dedos de teologia”. Embora ele tenha se declarado progressivo, eu não o vejo defendendo essa posição na internet. Nem eu a defendo abertamente, por exemplo, na minha página no Facebook. As pessoas me procuram para obter informações porque me viram no debate na Escola Charles Spurgeon. O que existe de fato, no Brasil, são muitos estudantes abraçando o dispensacionalismo progressivo, especialmente no Ceará. Eu diria que lá tem sido o berço desse movimento. E penso que daqui a alguns anos, quando esse pessoal que ainda está estudando começar também a escrever e a palestrar, o dispensacionalismo progressivo finalmente vai se tornar uma posição mainstream no Brasil.

MAC – Pelo jeito, expulsaram todos os aliancistas do Ceará. [risos]

AN – No Ceará tem muita gente boa que domina quando o assunto é dispensacionalismo progressivo. Esse pessoal só não é ainda famoso. Mas à medida que eles começarem a ganhar os títulos de mestrado e doutorado, depois escreverem e palestrarem, aí as coisas vão andar. E há também instituições americanas dispensacionalistas progressivas investindo no Brasil. O Jackson Jacques, também no podcast do “Dois dedos”, disse ser o futuro da teologia do dispensacionalismo progressivo no Brasil. [risos] Queria ouvi-lo falar mais a respeito, pois concordo em parte com o que ele disse. Embora eu reconheça que o movimento não é o futuro e nem vai ganhar todo o país. Vai ser que nem a iniciativa do Mac, que queria, com o seu blog, difundir o amilenismo no Brasil…

MAC – Fracassei vergonhosamente… [risos]

AN – Acredito que pelo menos a hegemonia aliancista vai sofrer, a princípio, um pequeno baque frente a esse aumento do movimento progressivo no Brasil. Atualmente, o estudante da Bíblia que faz pesquisas na internet geralmente se torna um aliancista. Há muito material desse tipo na rede. Mas, repito, quando o pessoal do progressivo começar a publicar, o debate vai melhorar.

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