É ERRADO FALAR MOLEQUE?

É bacana falar moleque?

por Ronaldo Lana

– Desce daí, moleque, você vai se machucar!

– Irmã, misericórdia! Não chama seu filho disso, não…

– Eu não vejo problema, acho até bacana!

– Irmã, tá repreendido em nome de Jesus!

Quem nunca ouviu algo assim?

Inocentemente, alguém usa uma palavra que cabe muito bem no contexto, como “moleque” ou “bacana”, mas acaba sendo recriminado por outra pessoa, que apela para as origens obscuras e amaldiçoadas daquilo que acabou de ser dito: Você sabia que a palavra “moleque” vem do hebraico e significa “pessoa sacrificada”?

ou Ninguém nunca te falou que a palavra “bacana” era usada em festas regadas a vinho e prostituição?

Apesar da usual boa intenção – ou a assumida boa intenção – por trás de casos assim, o que ocorre realmente é algo menos baseado na verdade do que em boatos falaciosos. Infelizmente, desmentir uma afirmação desse tipo pode não ser tão fácil quanto gostaríamos, mas também não é tão difícil. Basta boa vontade e simpatia pelo seu incauto companheiro de conversa.

É errado falar moleque ou bacana?

Para simplificar, o segredo está em se conhecer bem uma palavra: etimologia.

A origem das palavras, ou etimologia

O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define etimologia como “o estudo da origem e da evolução das palavras”. Etimologia, por si só, tem origem no grego ἔτυμον (que significa verdade, o que é verdadeiro, etc) e λόγος (lógos, ciência, tratado). Em miúdos, a etimologia estuda onde a palavra surgiu e como vem sendo usada em seu contexto temporal ao longo dos anos.

Sabendo agora o que significa etimologia, vamos aplicar nosso conhecimento às duas palavras em questão: “moleque” e “bacana”.

Moleque

O que a mãe ou o pai querem dizer quando inocentemente chamam seu filho de moleque? Recorrendo uma vez mais ao Houaiss, veremos que um moleque é: (i) um menino novo, de raça negra ou mista; (ii) garoto de pouca idade; (iiI) menino criado à solta, menino de rua; ou (iv) garoto travesso.

Nenhum problema, certo?

Alguém poderia argumentar que esses são os significados em nosso idioma apenas, enquanto no hebraico o significado original seria outro. Nesse antiquíssimo idioma, essa palavra seria Moloch, o antigo e terrível deus dos cananeus, adorado com sacrifícios de infantes. De fato, no hebraico vocalizado, encontramos referências a esse deus como mōlek (מֹלֶךְ‎); palavra essa que, na tradução da Septuaginta, foi registrada como Μολοχ e acabou chegando em nossa tradução portuguesa como “Moloque”.

Ocorre que, ao estudarmos a etimologia da palavra “moleque” na língua portuguesa, veremos que ela deriva não do hebraico mōlek, mas sim do quimbundo “mu’leke”. No quimbundo, que é uma língua da família banta, mu’leke significa justamente o que significa em nossa própria língua: um garoto, um filho pequeno. Por extensão, na língua portuguesa, moleque como adjetivo também pode expressar alguém sem juízo, sem compromisso, entre significados afins, mas o principal está ligado mesmo aos pequenos.

Muito provavelmente essa palavra chegou ao nosso idioma durante a triste época da escravidão, trazida pelos cativos que vinham de várias partes do continente africano e que, chegando aqui, continuavam muitas vezes a usar o próprio idioma entre os seus. Desse uso comunitário, a palavra se adaptou para o nosso português, virando “moleque” e sendo usada dessa maneira desde então para significar simplesmente aquilo que já expomos.

Apesar da triste semelhança entre o nosso “moleque” e o hebraico “mōlek”, os estudos etimológicos e filológicos mostram que nenhuma mãe ou pai está recorrendo ao nome de um cruel deus cananeu na hora de chamar para dentro de casa o travesso filho que, brincando na rua com seus amigos, só quer saber de se divertir.

Então podemos dizer que um moleque é “bacana”?

Bacana

Temos aqui outro infortunado caso de semelhança entre duas palavras, mas cuja origem e atual significado nada têm a ver uma com a outra.

“Bacana” é o que estudiosos classificam como uma palavra-ônibus: aquele termo que admite os mais variados sentidos, embora sempre semelhantes em sua qualidade – e usos. Podemos falar que alguém é “bacana”, que uma roupa ou carro são “bacanas”, que uma viagem foi “bacana”, que uma ideia ou atitude foi “bacana”. E, ao dizermos tudo isso, nossa intenção é afirmar que essas coisas são… legais. Só isso, mais nada. (Há também um outro uso, um pouco menos recorrente, que é o de aplicar “bacana” como um adjetivo ligado à riqueza, isto é, um sujeito “bacana” é um sujeito rico, de muitas posses.)

A etimologia da palavra “bacana” aponta para origens um tanto obscuras. A principal teoria dos estudiosos, apesar disso, é que ela vem da palavra “bacán”, essa última vinda do idioma genovês, falado na região italiana de Gênova, significando alguém que é patrão, capitão de navio ou pai de família na tradição romana. Disso, parte para “alguém que possui muitas posses”, depois para “benevolente” e termina em alguém que é “legal, interessante”. Bacana.

A decepção dos amantes dessa palavra é o argumento de que sua origem está ligada à palavra bacanal, a qual dispensa apresentações. Resumidamente, o bacanal é a festa antiga, celebrada em Roma, em homenagem a Baco, imagem mitológica que teria inventado o vinho. Para lembra-lo, os participantes dos bacanais celebravam essas festas com muita bebida – e tudo que daí resultava.

O principal problema dessa teoria é que a língua portuguesa já conta com a palavra bacanal e esta, por sua vez, tem sua etimologia bastante documentada e aceita pelos estudiosos. Vários dicionários etimológicos apontam que ela provém do latim “bacchánal,ális”, isto é, lugar onde mulheres celebravam os mistérios de Baco, na Roma antiga.

Apesar de terem origem em regiões geográficas muito próximas, as palavras “bacán” e “bacchánal” não querem dizer a mesma coisa e não eram, nem nunca foram, usadas como sinônimos. Inclusive, nem mesmo a idade de suas derivações na língua portuguesa são as mesmas. Os dicionários datam a palavra “bacana” do ano de 1958, aproximadamente; já a palavra “bacanal” é bem mais antiga, tendo seu uso verificado já no século XVI, quase 400 anos mais cedo.

Conclusão

Trocando em miúdos, podemos então concluir que não há nenhuma maldade ou origem amaldiçoada por trás de duas palavras tão inocentes como “moleque” e “bacana”?

Afirmar que “moleque” e “bacana” são palavras derivadas de Moloque e bacanal é um erro, e esse erro pode ser classificado como uma falácia ou uma falsa etimologia, algo que carece de fundamento linguístico. Casos assim são comuns. Podemos citar, por exemplo, aqueles que creditam a origem das palavras “forró” ou “gringo” ao idioma inglês, com suas locuções for all e green go, respectivamente. Ambas as palavras contam com sua origem etimológica devidamente documentada, mas também são vítimas desse engano comum. Nada que não possa ser resolvido com um pouco de estudo, dedicação e respeito pela verdade.

“Moleque” e “bacana” são duas palavras de amplo uso na nossa língua portuguesa, cujas origens nada têm a ver com maldição ou devassidão e cujos significados são simples: um menino pequeno e legal. Alguém pode até se recusar a utilizá-las, mas essa pessoa não pode argumentar que está fazendo isso com base linguística – no máximo, será uma escolha pessoal.

Caso você encontre alguém assim, convide-o para uma conversa, apresente aquilo que você aprendeu aqui e deixe bem claro que não há mal algum em dizer que há vários moleques correndo e brincando na rua, aproveitando uma tarde de sol bacana. Toda e qualquer maldade supostamente encontrada nessa afirmação estará apenas no coração de quem as vê.

Referências:

[1] Dicionário Houaiss da língua portuguesa

[2] Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa

[3] Dicionário on-line Michaelis da língua portuguesa

[4] Dicionário Aulete da língua portuguesa

[5] Nascentes, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1ª edição

[6] Cunha, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 4ª edição

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