É de graça, mas custou caro!

Em 2008 como um dos requisitos para conclusão do curso de teologia escrevi meu posicionamento teológico. Um documento de 15 páginas onde defendo minha posição teológica. Este documento tive que defender diante de uma banca de professores da faculdade. Um dos trechos que fui questionado foi o que cito abaixo:

“Creio que a justificação nos faz novas criaturas em Cristo (2Co 5.17). É a partir da justificação que podemos fazer obras que agradam a Deus, pois somos impulsionados pelo agir do Espírito Santo que habita em nós (Rm 8.9-11) e nos concede o fruto do Espírito (Gl 5.22-23). Neste sentido, a justificação também é efetiva. Santificação não é cumprir a lei para agradar a Cristo, pois a lei, mesmo após a justificação continua acusando o nosso pecado. Santificação é o diário abandono das forças próprias e da busca dos méritos e virtudes próprios e o entregar-se em fé à misericórdia de Deus. Santificação é viver a partir da justificação imputada por Cristo. Por isto não há espaço para lassidão moral, pois são obras da carne (Gl 5.19-21) e em Cristo formos libertos para uma nova vida (Jo 8.36, Gl 5.1). A justificação nos liberta para o amor ao próximo, para o serviço que não busca interesse próprio (Gl 5.13).”

Especificamente me perguntaram sobre a relação entre graça e lassidão moral. Será que a pregação da graça não nos levaria a uma vida sem padrões morais, sem uma mudança ética?

Graça é dádiva sem merecimento. É o presente de Deus concedido por causa do sacrifício de Cristo na cruz. Graça tem preço sim, custou muito caro e foi pago por Cristo na cruz. Graça é presente porque nãos somos nós que desejamos, ou procuramos, mas é Cristo que vem a nós pelo Espírito Santo na pregação do Evangelho e nos presenteia com a graça. Graça produz em nós a fé, que abraça a Cristo como Senhor e Salvador.

A graça nos transporta da obediência à vontade da carne (kata sarki) para a obediência a vontade de Deus. Deixamos a escravidão do pecado para sermos feitos escravos de Cristo (Rm 6). A Confissão de Augsburgo chama isto de a Nova Obediência. Porém é preciso fazer uma ressalva escatológica: uma vez que a salvação é por graça, não podemos nos fiar nas obras como se fossem uma garantia da nossa salvação. A confiança só pode estar em Deus e no seu agir gracioso para conosco. As obras são apenas consequências inevitáveis da fé.

Mas como fica então a questão de que continuamos a pecar mesmo após a justificação?

Continuamos a pecar porque estamos na carne (en sarki), é nossa condição humana. Vivemos nesta condição de pecadores e mesmo a justificação na anula o pecado original aqui nesta vida. Desta forma por causa de Cristo somos justificados, transportados para uma nova relação com Deus e a uma nova obediência. Não desejamos mais pecar, nem viver conforme a vontade da carne. Entretanto a vontade da carne continua viva em nós, e milita contra a vontade do Espírito Santo. Somos então simultaneamente justos e pecadores, pecadores de fato, justos na esperança da ressurreição final.

Já que o pecado é inevitável, então vou pecar com vontade, e depois peço perdão e está tudo resolvido, não é?

Teoricamente poderia dizer que sim. Porém, insistentemente a Bíblia afirma que não devemos satisfazer a vontade da carne (Gl 5.16, 1Jo 2.16-7). O fato de Deus ser gracioso, perdoador, e que sempre nos ama independente das nossas ações, não significa que ele precisa nos perdoar automaticamente (e mecanicamente) sempre que nós utilitariamente chegarmos em oração desejando uma limpeza sem mudança de mentalidade (ou atitude – Fp 2.5).” Continuaremos a pecar porque estamos debaixo da graça e não da Lei? De modo nenhum” (Rm 6.15). Muitos cristãos levam uma vida de devassidão moral, contrabandeando, usando de pornografia, vivendo uma sexualidade banal e bagatelizada (sem comprometimento algum, apenas por prazer), abusando do álcool, fazendo uso de drogas lícitas e ilícitas, buscando o prazer em tudo como razão de existência, entre outros vícios da nossa sociedade. Eu mesmo preciso lutar em minha vida contra os vícios, assim como o Apóstolo Paulo lutou, tendo afirmado: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado.” (Rm 7.19-25).

Que a graça do Evangelho continue sendo em nós o poder de Deus para transformação de nossas mentes e atitudes, de forma que não venhamos a nos conformar com este mundo (Rm 12.2) e para que possam dizer de nós com respeito aos pecados outrora cometidos: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” (1Co 6.11).

Alex @stahlhoefer

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  • Excelente Alex.

    Na parte onde diz que, mesmo na condição de salvos ainda pecamos, é o que a na escatologia chamamos de “já, mas ainda não”. Uma tensão com a qual temos que conviver até o último dia.

    Abraço.

    • Alex

      Valeu MAC!

      é bem essa a ideia…
      abraço

    • ja li,bom texto alex. esse Mac está igual o Affonso do Mrg, onde da espaço ele fala do Amilenismo kkk

      • Alex

        valeu Felipe!
        Trolando o Mac?? Que isso!! hahah
        Abraço

  • Tiago Santos

    Muito bom esse texto, parabéns mesmo, muito profundo e tirou algumas duvidas que tinha. valeu mesmo

    • Alex

      Obrigado Tiago!!
      Abraço

  • Maiara Müller

    Ótimo.

    Sempre tinha muitas noias para responder com clareza bíblica a essa pergunta: “Já que o pecado é inevitável, então vou pecar com vontade, e depois peço perdão e está tudo resolvido, não é?”.

    “O fato de Deus ser gracioso, perdoador, e que sempre nos ama independente das nossas ações, não significa que ele precisa nos perdoar automaticamente (e mecanicamente) sempre que nós utilitariamente chegarmos em oração desejando uma limpeza sem mudança de mentalidade (ou atitude – Fp 2.5).”

    E aí vem o versículo que mais elucida a questão: “Continuaremos a pecar porque estamos debaixo da graça e não da Lei? De modo nenhum” (Rm 6.15).

    Fantástico, Alex. Deus te abençoe. Como está a Alemanha? 🙂