Uma palavra sobre Contrarreforma

Não se pode negar a força das palavras. Quando escolhemos este e não aquele termo para designar alguma coisa, estamos fazendo escolhas éticas e demonstrando uma determinada visão de mundo. A escolha por denominar um evento da história por Reforma Protestante traz, na própria expressão, inúmeros pressupostos. A intenção aqui não é dizer a ‘última palavra’ sobre a Contrarreforma e muito menos sobre a Reforma, mas refletir sobre quais pontos de partida que o nosso vocabulário denota.  Além de discutir por que esta análise é importante?

Primeiro, porque sacralizar uma palavra não é bom, uma vez que por detrás das letras existem acepções que não se esgotam, de modo que os significados são mais importantes que os signos. Segundo, porque muitos não gostam de falar em Contrarreforma, porque isto seria o mesmo que dizer que o que aconteceu na Igreja Católica depois dos movimentos protestantes foi algo meramente reativo. Vejamos então se conseguimos crescer na compreensão, sem que caiamos em uma rejeição ou em uma banalização daquilo que já temos como conceitos.

Antes de jogarmos luz sobre a Contrarreforma, nem que seja brevemente, devemos nos deter no que significa dizer que houve, na Igreja, uma Reforma. Falar em Reforma é afirmar uma continuidade. Afinal, quando falamos que vamos reformar nossa casa não significa que estamos mudando nosso endereço para uma nova residência, nem que vamos demolir a construção antiga e fazer uma nova do zero, mas estamos afirmando que a casa antiga ainda é útil para nós, ao menos seu fundamento, suas paredes, e que com planejamento e trabalho duro teremos uma casa nova, mais adequada às necessidades de seus moradores atuais. Dentre tantas coisas que podem atestar este sentido de continuidade está o fato de que as primeiras comunidades reformadas correspondiam ao que eram antes; mudou-se a forma de organizar a igreja, mas as pessoas que congregavam juntas continuaram as mesmas. A porção do Povo de Deus correspondente à Alemanha luterana continuou a se reunir em seus templos centenários, aqueles que outrora foram católicos, porque o que precisava ser reformada era a Igreja-Pessoas, não a Igreja-Santuário.

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Para quem quer afirmar a descontinuidade entre catolicismo e evangelicalismo, talvez a expressão mais adequada seja Revolução Protestante. E não são poucos os elementos revolucionários: a negação da autoridade papal, a redução da vivência sacramental, a valorização dos aspectos comunais a despeito de aspectos hierárquicos et cetera. Quem sabe a nomenclatura não pegou por estar vinculada demais a questões políticas, porém as mudanças que começaram no âmbito religioso alcançaram tamanha proporção que a palavra revolução pode ser usada tão corretamente quanto reforma. Um católico avesso ao diálogo poderia querer usar ainda a noção de Rebelião, porém de maneira inapropriada, já que toda tentativa de reversão do processo, que teve Lutero como seu maior expoente, foi desde o início irreversível. Assim, o termo ‘reforma’ se torna mais simpático para a concepção de uma tradição cristã pan-ocidental, pois permite pensar, a partir da continuidade, a identidade das tradições depois dos eventos de 1517.

Por outro lado, o substantivo composto Contrarreforma, usado para designar o que aconteceu no interior da igreja romana, apresenta-se bastante antipático para os católicos. Que a hierarquia eclesiástica era ‘contra’ o que estava acontecendo mais ao norte é evidente, entretanto, também não se pode negar que havia uma insatisfação, em todos os níveis, relativa a inúmeras práticas dos cristãos da época, sobretudo clérigos, tais como: simonia, escasso conhecimento teológico dos padres, distanciamento dos fiéis da vida celebrativa da Igreja et cetera. Afirmar que houve uma contrarreforma significa que alguns queriam negar o que se queria reformar. E do meu ponto de vista devo usar aqui uma paráfrase infame: “Ecclesia contra reformata et semper contra reformanda est”, que quer dizer que, desde aquele tempo, até hoje, existem setores na Igreja Católica que lutam para voltar tudo como era antes do século 16. Alguns rezam por uma volta à cristandade, apegam-se com unhas e dentes ao que restou da sombra do triunfalismo e exercitam seus músculos esperando que as trombetas soem convocando-os para a próxima cruzada. Por isso, apesar de certo incômodo, é bom para os cristãos romanos, de vez em quando, atinar aos impulsos contrarreformistas em seu meio.

Historicamente o Concílio de Trento (1546) foi o marco da Contrarreforma, ou melhor, da Reforma Católica. Muitas doutrinas que ninguém tinha contestado até o momento, como a transubstanciação da Eucaristia, foram afirmadas por decreto conciliar e nisto reside uma clara oposição ao protestantismo. Ao passo que o esforço de supressão do laxismo de sacerdotes e bispos, a organização do direito eclesiástico (que abre caminho para a organização do direito civil) são elementos que comprovam uma verdadeira e substancial reforma das igrejas que mantiveram a comunhão e submissão ao sumo pontífice. Vale dizer ainda que Trento sacramenta a cisão da Reforma Protestante, pois a não participação no Concílio de seus teólogos e líderes demonstrou que não se desejava a reconciliação naquela ocasião. Em suma, as duas reformas não podem ser entendidas separadamente, pois são antíteses e sínteses recíprocas; as influências e as divergências são catalizadores das nossas identidades.

O que somos hoje é fruto desta história de continuidade e descontinuidade. Porém o que foi feito antes, e em terras tão distantes, não é tão importante como o que podemos fazer em nosso Aqui e Agora. Cabe a nós afirmarmos exclusividade, reagirmos ou interagirmos. Mais sábio é aquele que está consciente que a sua visão de mundo – e nisto inclua sua eclesiologia – “prepara a casa” das futuras gerações. Ou seja, somente pronunciar-se contra (ou a favor), o que quer que seja, dentro da Igreja não resolve os problemas, é preciso fazê-lo em vista das consequências do que pode vir a seguir.

E sobre os fatos do passado, se alguns não nos aprazem festejar, que possamos ao menos comemorar. Que estes conjuntos fonéticos – Reforma e Contrarreforma – sejam chaves para nosso entendimento. Que por meio deles possamos co-memorar. Que, juntos, possamos trazer à tona aquelas memórias capazes de dar sentido às nossas próximas ações.

*Alexandre Ferreira Santos é presbítero católico da Arquidiocese de São Paulo e mestrando em filosofia pela Pontifícia Universidade Lateranense.

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