Clive em: meu nome é Macário

Nos reuníamos numa igrejinha antiga, mal comportava todas as pessoas sentadas lá dentro. No verão muitos preferiam sentar-se do lado de fora e apenas ouvir o culto pelos alto-falantes à buscar um lugar dentro da velha e quente construção de alvenaria. Lá na última fileira se assentara um homem magro, estatura média, cabelos escuros, um ou outro fio já grisalho. Pelo rosto daria uns 50 anos para ele, mas tinha menos. Estava vestido de forma simples, não chamava a atenção. Um frequentador normal, como qualquer outro. Não teria reparado nele, pois perto da porta, sem dúvida ele teria se escapulido rapidamente ao fim do culto, antes mesmo de eu o cumprimentar. Porém ele mesmo havia pedido a palavra no momento em que eu abrira para pedidos de oração. Minha atenção estava voltada para ele.
– Obrigado por compartilhar a boa notícia Fernanda, vamos orar agradecendo a Deus pelas bençãos concedidas em sua vida – disse, já encerrando aquele momento em que as pessoas livremente podiam pedir orações, dar um testemunho, abrir algum assunto com a comunidade. Mas fui interrompido por uma voz rouca, vindo da última fileira da igreja:

– Pastor, pastor! Eu queria pedir uma oração! – Falou alguém ainda sentado, só com o braço estendido. Era o que eu podia ver no meio de tantas pessoas.

– Sim, sim. Podes falar, amigo!

– Ééé… meu nome é Macário – disse o homem com voz tremula – eu já participei aqui na igreja há alguns anos, alguns me conhecem – Muitos que estavam desatentos, viram-se rapidamente para ver se o tal Macário era quem eles já conheciam de outros “carnavais” –  Estive internado numa clínica de recuperação. Eu tive problemas, sabe, com a bebida, com álcool – balbuciou Macário a temida palavra.

– Sim, vamos orar por você Macário! Obrigado por ter vindo novamente à nossa igreja e compartilhar um assunto tão difícil – completei, meio que o cortando, devido ao tempo, e até de forma um tanto quanto seca.

Diria que pelo primeiro contato, ele teria desistido da igreja. Não foi aquela recepção calorosa e esperada, tampouco fora algo prazeiroso pra ele, abrir um problema pessoal em público. Ele era figura carimbada na cidade, boa parte dos que estavam no culto o conheciam. Sabiam da sua fama. Se ouvia da parte de alguns aqueles comentários:  “já é a décima internação dele, isso aí não tem mais jeito”. Outros, mais esperançosos, até chegavam a cumprimentá-lo na saída do culto: “que bom te ver novamente Macário, ficamos felizes com a tua recuperação, segue firme e qualquer coisa, estamos aí”. O fato é que poucos realmente estão “aí” quando um dependente precisa. Segui por entre os muitos que lotavam o corredor para tentar corrigir minha abordagem seca e pouco receptiva. Queria pelo menos dizer ao Macário que conosco ele teria um lugar onde receberia atenção, mesmo que eu não tenha dado essa atenção merecida na primeira vez, mesmo que pela minha inexperiência, não sabia como dar a atenção que ele necessitava, e também merecia.

– Seu Macário! – Chamei ele, antes que ele saísse para a rua.

– Oi pastor. – Ele respondeu olhando para baixo e sem chegar muito perto.

– Que bom que você resolveu vir aqui na igreja e se fortalecer para luta diária contra o álcool. Não te dei o tempo e a atenção devida no momento da oração, e por isso peço perdão. Mas, meu escritório estará sempre aberto pra você! – Quis amenizar.

– Ok, agradeço. Mas tenho que ir, trabalho a noite e preciso me apressar pra não me atrasar. Até domingo que vem, pastor. – Se despediu, se esquivando de dar a mão ou um abraço.

– Deus te abençoe. Até domingo que vem! – Minha voz ecoou sem resposta no escuro do estacionamento em frente à Igreja, por onde já caminhava Macário se esquivando de um e outro carro que manobravam no pátio.

Macário ainda fumava, e o hálito de cigarro misturado com chiclete de hortelã era perceptível. A vergonha dele era clara, tanto na voz, quanto no comportamento tímido, nas costas arcadas, não tanto pelo peso da idade ou do trabalho pesado, mas de tanto olhar para o chão, sem ter a coragem de falar com as pessoas olhos nos olhos, sem conseguir enxergar a vida de frente. Ele vencera o álcool, mas não o cigarro. Esta derrota, ao seus olhos, ainda o consumia diariamente. Mas para mim, era um homem vencedor, pelo menos naquela noite, pois voltaria para casa sem beber, e tendo vencido seu medo de se expor diante de uma centena de pessoas. Depois daquele encontro, vi Macário uma ou outra vez na igreja, até que ele novamente sumira. Mais uma internação. Será que a turma do “esse não tem jeito” teria razão?
Leia o episódio anterior desta série: A morte bate à porta

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