PLURALIDADE TEOLÓGICA

O debate soteriológico é sempre constante nas redes sociais. Arminianos e calvinistas geralmente se digladiam e trocam farpas querendo expor seus pontos e contrapontos. Obviamente que nem todos são assim, muitos cristãos conseguem conviver em paz com a posição teológica do outro, discordando em amor e ao redor da mesa.

Dentro dessa temática, recebemos a seguinte pergunta de um ouvinte:

“Sempre tive uma dúvida em relação a teologia de vocês. Como é ler um livro calvinista, depois outro arminiano e não pirar? Kkk Eu sempre fui um zé que buscou muitas informações, acabei descobrindo a teologia reformada e saí da igreja neopentecostal que eu frequentava em busca de uma denominação ‘mais bíblica’, digamos assim. Porém, desde que eu tô nessa busca, tenho lido e visto tanta coisa que às vezes elas divergem. Não tô sabendo lidar muito bem. Como vocês, que leem bastante e são de denominações diferentes, lidam com essa pluralidade da graça?”

Olá, Rafael (nome fictício).

Eu sou o Cacau Marques, participo da equipe do Bibotalk e gravo o BTCast de vez em quando. O Bibo nos repassou a sua pergunta e eu me prontifiquei a respondê-la por acreditar que a minha experiência pode ajudá-lo. Eu sou pastor batista e em toda a minha vida sustentei uma visão sobre a salvação que se aproxima mais da visão arminiana. Acredito nos cinco pontos da remonstrância, apesar de no último ponto eu sustentar a crença de que a salvação não se perde (algo que os remonstrantes deixaram em aberto). Apesar disto, toda a minha formação no seminário foi envolta em leituras calvinistas e aulas com professores monergistas. Aprendi a amar o calvinismo e Calvino e a respeitar muito essa linha teológica, mas nunca me tornei um calvinista. Costumo dizer que não sou calvinista só porque os calvinistas nunca conseguiram me convencer kkkkkkk. Mas a verdade é que quando transcendemos o debate soteriológico, um horizonte muito rico se abre para nós. Eu não quero dizer que você deve ignorar as diferenças entre as visões sobre a salvação, mas que você deve olhar para as convergências com tanta dedicação quanto olha para as divergências. Estamos em um período muito polarizado (em diversas áreas) e muitas vezes tendemos a olhar para as distinções com mais ênfase do que olhamos para os pontos em comum. Por isso, vou elencar algumas atitudes que o ajudarão a estabelecer um debate de ideias justo e equilibrado sobre o assunto:

ARMINIANISMO E CALVINISMO

  1. O seu arminianismo não deve diminuir a Glória da Graça de Deus e nem a sua soberania. O crente arminiano não deve em nenhum momento pensar que é digno ou merecedor de qualquer graça de nosso Senhor. Não deve achar que sua posição de salvo foi conquistada por qualquer mérito, nem mesmo o menor dos méritos que você possa atribuir a si. Isso inclui atribuir a salvação do outro também a um esforço pessoal. Ninguém é salvo pela habilidade do evangelista, ou pela técnica da apresentação do Evangelho. Digamos que Deus anuncia sua Graça APESAR do pregador e não PELOS MÉRITOS do pregador. Resumindo, ninguém é salvo pelo mérito de nenhum outro homem que não seja o nosso Senhor Jesus Cristo.
  2. O seu calvinismo não deve diminuir o amor e a graciosidade de Deus. O nosso Deus soberano e excelso revelou-se a nós em Jesus Cristo. Esse nosso Senhor e Deus Jesus não veio para julgar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele (João 3:17). Ou seja, o Deus que vemos em Jesus é um Deus de Graça e Salvação para o mundo. Ainda que você creia que essa salvação de Deus seja apenas para os eleitos, lembre-se de que Deus se revelou como salvador e é assim que você olha pra ele. Não atribua a ninguém uma posição de “odiado por Deus” porque tal conhecimento não foi dado a você. Simplesmente anuncie ao mundo o Deus que ama o mundo em Jesus Cristo. Anuncie também o juízo que virá, mas nunca sem apresentar o caminho da graça que alcança o pecador.

CONHECIMENTO TEOLÓGICO

  1. Não deixe que arminianismo ou o calvinismo o torne orgulhoso. Qualquer conhecimento teológico que leve ao orgulho não vem de Deus. O verdadeiro conhecimento de Deus nos humilha, faz-nos dizer “Ai de mim” como aconteceu com o profeta Isaías (Is. 6:5). Isto significa também que a sua posição no debate soteriológico não pode levá-lo a dissenções ou intrigas. A divergência entre calvinismo e arminianismo é infinitamente menor do que o real conhecimento de Cristo e se essa divergência está grande ao ponto de separá-lo de seus irmãos é porque você não tem atentado para o Jesus que está assentado a mesma mesa com todos nós. Gosto dessa figura da mesa porque ela nos lembra do ato de partilha que nosso Senhor repetiu tantas vezes. Os discípulos não se reuniam ao redor da mesa com uma ideia. Eles se reuniam com o próprio Cristo. E diante da realidade de nosso Senhor, as ideias pré-concebidas se desfaziam. Zelotes e publicanos, fariseu e prostitutas, judeus e gentios, senhores e escravos, todos viravam discípulos.

BÍBLIA E TEOLOGIA

  1. Leia a Bíblia. Quando estamos aficionados pelo debate soteriológico tendemos a não ler a Bíblia em si, mas um outro livro chamado O Calvinismo na Bíblia ou O Arminianismo na Bíblia. Ou seja, olhamos para o livro sagrado e buscamos apenas compreender como cada texto se relaciona com a doutrina que ocupa a nossa mente. Isso causa um monte de problemas, desde o apego a certos textos e abandono de outros até a distorção descarada de passagens que não se adequem à nossa visão. Para ler a Bíblia, dispa-se desses conceitos e busque em Espírito a voz de Deus. Lembre-se de que esse tema é um debate iniciado no século 17 e que antes disso as pessoas liam a Bíblia sem essas categorias (ainda que o tema da salvação já fosse objeto de debate antes disto).
  2. Leia obras teológicas em Espírito. Essa é uma dica de ouro. Quando nos aprofundamos na teologia não podemos nos afastar de Deus. Nossa tradição protestante é bastante racional e, por vezes, faz-nos acreditar que Deus se conhece por meio de pesquisa. Devemos sempre nos lembrar de que estamos apenas aprimorando nosso entendimento sobre Deus e não substituindo a comunhão com ele pela leitura de obras teológicas. Vou tentar explicar isto com uma analogia. Imagine que você, depois de casado há alguns anos, encontra uma caixa com memórias da sua esposa. Você e ela se alegram ao descobrir isso e começam a explorar o conteúdo da caixa. Lá há cadernos antigos do tempo de escola, fitas de vídeo da infância, adolescência e do tempo da faculdade. Cartas recebidas de amigas e parentes do tempo em que ela foi morar no exterior etc. Quanto mais você lê e vê, mais você se encanta por sua esposa, mais a admira e mais compreende algumas de suas características. Isto é muito bom. Mas vamos imaginar que você comece a gostar tanto de explorar a caixa que se esqueça de que sua esposa está viva ao seu lado. Você não fala mais com ela, não a beija mais, não interage de modo nenhum. Loucura, não? Pois esse é o risco que corremos quando mergulhamos na teologia de modo carnal. Podemos acreditar que explorar a teologia é se encontrar com Deus, mas, frequentemente, o contrário acontece! Por isso, lembre-se sempre da devoção pessoal e comunitária.

Este último ponto merece um adendo. Quando nos aprofundamos na teologia em comunhão com nosso Deus, nós também o fazemos em comunhão com nossos irmãos. E isso é importantíssimo quando lidamos com temas polêmicos. Quando eu leio um livro do John Piper (um dos meus calvinistas preferidos), eu sou levado a me lembrar frequentemente que estou diante da obra de um irmão, alguém que comunga da mesma fé e do mesmo Cristo. Nossas divergências não são maiores do que o Senhor que nos reconciliou com o Pai. Assim, eu posso ler de coração aberto e, inclusive, discordar dele em amor. Isto impede que a teologia seja um veículo para as minhas paixões carnais e a transforma em uma atividade verdadeiramente espiritual.

Acho que você percebe que a maior parte desses pontos pode e deve ser aplicada a qualquer divergência teológica. Outros são mais específicos para o tema em questão. Peça sempre o discernimento de Deus para julgar todas as coisas pelo Espírito. Deixo três textos bíblicos que acredito que devem nos inspirar em nossa atividade teológica:

Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. (1 Coríntios 2:15)

Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida. (Tiago 1:5)

Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito. (Colossenses 3:14)

Espero ter ajudado.

Um abraço,

Cacau

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