O que é Molinismo?

O que aconteceria se a Tia May tivesse morrido, ao invés do Tio Ben?
O que aconteceria se o simbionte negro tivesse tomado controle do Justiceiro?
O que aconteceria se o Hulk tivesse matado o Wolverine?
O que isso tem a ver com teologia?

No final da década de 1970, a Marvel Comics iniciou uma série de histórias que narravam acontecimentos que respondiam a essas perguntas, dentre muitas outras.
Nos volumes “What If”, o alienígena Uatu, da raça dos Vigias, contava a história ao leitor, descrevendo os acontecimentos de determinadas linhas paralelas, onde os eventos não haviam ocorrido da forma como nós conhecemos hoje. Os Vigias conseguem enxergar todos os universos possíveis, laterais à cronologia oficial da Marvel.
Essas histórias em quadrinhos lembram muito uma proposta teológica desenvolvida pelo teólogo Molina. Em 1535 nascia em Madri, Luis de Molina. Décadas depois, o espanhol viria a se tornar um teólogo jesuíta e jurista por ofício. Seu nome está presente em uma doutrina que pretende conciliar a soberania de Deus com a liberdade humana: O Molinismo. Mas o que é o Molinismo?

O atributo da onisciência determina que Deus sabe de todas as coisas? O Molismo sugere que Deus sabe inclusive o que aconteceria se aquilo que aconteceu de fato, tivesse ocorrido em circunstâncias diferentes. Ficou difícil? Voltemos aos Vigias do Universo Marvel.

Na edição #258 de The Amazing Spiderman, Peter Parker descobre que seu uniforme negro, adquirido durante as Guerras Secretas, é na verdade um organismo vivo. Com muito custo e com a devida ajuda de Reed Richards (Senhor Fantástico, aquele que se estica todo hehe) e os demais membros do Quarteto Fantástico, Peter se livra do simbionte (organismo que dá poderes mas altera a mente do hospedeiro) e volta ao seu uniforme padrão, que conhecemos.
Uatu nos conta como seria se o Senhor Fantástico não tivesse conseguido conter o simbionte. Com circunstâncias diferentes, a vida do Homem-Aranha mudaria completamente por conta de suas novas decisões.

Dessa forma, Molina compreendia que os planos de Deus, que por sinal, não podem ser frustrados, se cumprem através das livres escolhas dos seres humanos. Conhecendo as relações de causa e efeito, Deus utiliza as circunstâncias para realizar seus intentos. Esse saber circunstancial antecipado e contingente de Deus é conhecido como conhecimento médio.

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O molinismo apresenta-se como uma terceira via às correntes soteriológicas mais comuns, a saber, Arminianismo e Calvinismo, ainda que não trate exclusivamente de salvação. Ele determina, teoricamente, que Deus não pode querer que uma criatura livre aja de uma forma particular, e este ato ainda ser livre. Ações livres deve ser auto-determinantes. Os proponentes do conhecimento médio, dentre os quais, destaca-se o apologeta norte-americano Willian Lane Craig, não negam que Deus possa influenciar uma escolha livre ou persuadir um agente para agir de uma forma particular. O que ocorre é que essa influência não será determinante. O conhecimento médio exige a liberdade de natureza libertária, ou seja, as criaturas livres têm a capacidade de escolher entre alternativas concorrentes, e realmente poderiam escolher ou uma ou outra alternativa.

O molinismo propõe pelo menos três modelos de compreensão do conhecimento onisciente de Deus:
1 – Conhecimento Natural – É o conhecimento de Deus de todas as verdades possíveis e necessárias. Deus sabe todas as combinações possíveis de causas e efeitos. Ele também conhece todas as verdades lógicas e morais.
2 – Conhecimento Médio – É o conhecimento de Deus a respeito daquilo que criaturas livres fariam dadas determinadas circunstâncias que lhes fossem submetidas. Também é conhecido como conhecimento contrafactual. É o conhecimento de Deus acerca dos fatos das condições subjuntivas.
3 – Conhecimento Livre – É o conhecimento de Deus acerca daquilo que Ele mesmo decidiu livremente criar.

“O agente chamado de livre é aquele que, uma vez postulados todos os pré-requisitos para agir, é capaz de agir ou não agir, ou é capaz de fazer determinada coisa de modo tal que também seja capaz de fazer algo contrário.” – Luis de Molina

Propostas de evidências bíblicas para o conhecimento médio
Êxodo 13:17 – Apesar do povo não ter passado pela terra dos Filisteus, Deus sabia exatamente qual seria a conduta dos hebreus caso tal circunstância ocorresse.

1 Samuel 23:8-14 – Apesar de Davi ter saído de Queila, Deus sabia exatamente o que ocorreria caso ele tivesse ficado: Teria sido entregue pelo povo nas mãos de Saul.

Jeremias 23: 21-22 – Os profetas se portaram mal, agindo e profetizando de maneira errada. Contudo, Deus sabia exatamente o que ocorreria caso os profetas tivessem sido fieis a Ele e quais os resultados disso na conduta do povo.

Mateus 11:21-24 – Jesus declara o que aconteceria se os milagres que ocorreram em Corazim e em Betsaida, tivessem ocorrido em Tiro e em Sidom. Ele utiliza o mesmo recurso a respeito de Sodoma, prevendo a reação desta cidade caso presenciasse os milagres ocorridos em Cafarnaum.

1 Coríntios 2:8 – Paulo escreve a respeito da sabedoria de Deus, que os governantes deste mundo não conheceram. Caso tivessem conhecido, suas ações seriam diferentes, ou seja, não teriam crucificado ao Senhor da glória.

Meio milênio de discussão não foi suficiente para estabelecer-se um consenso entre teólogos no mundo acadêmico sobre o assunto. O que aconteceria se todos eles concordassem com uma posição definitiva? O que aconteceria se houvesse maior respeito entre aqueles que tem pontos de vista divergentes?

Só Deus sabe.

*Por Erlan Tostes

Leitura recomendada
http://www.reasonablefaith.org/portuguese/molinismo-e-livre-arbitrio [Em Português]
http://www.reasonablefaith.org/portuguese/Molinismo-Conhecimento [Em Português]
http://www.theopedia.com/molinism [Em Inglês]
http://www.iep.utm.edu/middlekn/ [Em Inglês]

Livros
O Único Deus Sábio, do Craig editora Sal Cultural
Concordia del libre arbitrio con los dones de la gracia y con la presciencia, providencia, predestinación y reprobación divinas (Luis de Molina, 1588) http://filosofia.org/cla/mol/c031222.pdf [Em Espanhol]

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  • Matheus Ramos de Avila

    E tem quem diga que quem lê quadrinhos não tem cultura. Olha que coisa maravilhosa.