Ele deu a própria vida para mudar o mundo

Cinquenta anos da morte de Martin Luther King

O mundo racial no qual cresci e o mundo racial no qual vivemos hoje são incrivelmente diferentes. O racismo permanece de várias formas nos Estados Unidos e também em todo o mundo. Na verdade, nos últimos dois anos, houve um retrocesso desalentador, à medida que os defensores da supremacia branca começaram a se sentir encorajados e a promover manifestações públicas.

No entanto, o cenário era ainda pior nos dias de minha juventude, na Carolina do Sul. Muito pior. A segregação era quase absoluta; suas manifestações, completamente degradantes. Tudo isso defendido na época não apenas por manifestações de rua, mas também nas câmaras do poder político – sem nenhum pudor. O cenário nos Estados Unidos da América era o seguinte:

  • Em 1954, dezessete estados exigiam que as escolas públicas fossem segregadas (America in Black and White, 99);
  • Em 1956, 85% de todos os habitantes brancos da região sul do país rejeitaram a seguinte declaração: “Estudantes brancos e negros deveriam frequentar as mesmas escolas”;
  • 73% disseram que deveria haver “seções separadas para negros no transporte público”;
  • 62% não queriam que um negro “com a mesma renda e educação” se mudasse para a mesma vizinhança (144);
  • Em 1963, 82% de todos os sulistas brancos declararam oposição a uma lei federal que daria “a todas as pessoas, tanto para negros quanto brancos, o direito de serem atendidos em locais públicos, tais como hotéis, restaurantes e estabelecimentos semelhantes” (139);
  • E, em 1952 (quando eu tinha seis anos de idade), apenas 20% dos negros sulistas com idade para votar possuíam registro eleitoral.

O que essas estatísticas representavam era um mundo injusto, perigoso, condescendente, hostil, ameaçador e humilhante para os negros. Você alguma vez já parou para se perguntar o que significa haver bebedouros ou banheiros separados, exceto “Vocês são imundos — como leprosos”?

Aquele era um mundo aterrorizante.

Entra Martin Luther King

“Não sabemos se o mundo teria mudado sem ele, mas sabemos de fato que ele foi um instrumento nas mãos de Deus.”

No espaço de tempo entre aquele mundo, de comportamento racial terrível, e a nossa sociedade, de comportamento racial imperfeito, viveu e atuou Martin Luther King, Jr. Não sabemos se o mundo teria mudado sem ele, mas sabemos de fato que ele foi um instrumento nas mãos do Deus todo-poderoso. Vamos deixar de lado a teologia e as falhas morais de King. Elas não anulam o bem gigantesco que Deus operou por meio desse homem. Ele foi usado pela poderosa mão da Providência a fim de mudar o mundo de tal forma que as expressões de racismo mais aterrorizantes, escancaradas, degradantes, públicas (e, em geral, com o aval da justiça) acabassem sendo extintas.

Só isso já faz com que o quinquagésimo aniversário do trágico assassinato de Martin Luther King, além da perda que isso significou para a causa da justiça, sejam dignos de um foco sincero.

Martin Luther King deu a própria vida para mudar o mundo. E, conforme o fim se aproximava, ele ficava cada vez mais consciente de que “o Movimento” iria custar sua vida. Na noite do dia 4 de abril de 1968, isto é, na véspera de ser assassinado por James Earl Ray, enquanto estava do lado de fora do quarto 306 do Lorraine Motel, em Memphis, ele pregou na igreja Bishop Charles Mason Temple. MLK havia vindo a Memphis para apoiar os negros que trabalhavam na área de saneamento, serviço pelo qual eram drasticamente mal pagos.

A sua mensagem acabou ficando conhecida pelo tema “Eu estive no alto da montanha”. King começou tratando da história mundial em resposta a uma questão de Deus: “Onde você gostaria de ter vivido?” A resposta de King foi a seguinte: “Se você me permitir viver apenas alguns anos na segunda metade do século vinte, eu ficaria feliz.” Por quê? Porque “Vejo Deus trabalhando nesse período do século vinte de um jeito que, estranhamente, os homens estão respondendo. Algo está acontecendo em nosso mundo”.

O que estava acontecendo? “Estamos determinados a ser homens. Estamos determinados a ser pessoas. Estamos fincando o pé. Ninguém pode subir em suas costas a menos que você esteja curvado.” Por uma breve janela de tempo – aberta por tempo suficiente – MLK pôde usar sua voz para conter a violência e superar o ódio: “Em nosso movimento de não violência, somos mestres em desarmar as forças policiais, que ficam sem saber o que fazer.” Ele acendeu um tipo de chama que bombeiro nenhum conseguiria apagar, um tipo de coragem que nenhum cão de guarda conseguiria derrotar.

É claro que havia violência nos anos 1960. Mas, três anos antes de seu último sermão, ao ser perguntado se os casos de violência ocorriam porque a liderança de seu movimento já não funcionava mais, King acertou ao responder que “Esses casos que tivemos são ínfimosse comparados ao que teria ocorrido sema postura de contenção eficaz demonstrada pela nossa liderança”.

Em direção à Terra Prometida

“Por uma breve janela de tempo – aberta por tempo suficiente – MLK pôde usar sua voz para conter a violência e superar o ódio.”

Naquela derradeira noite, King continuou com sua mensagem: “Buscamos ‘um tipo perigoso de altruísmo’. Tal qual o Bom Samaritano. O Levita se perguntou: ‘se eu parar para ajudar esse homem, o que acontecerá comigo?’ Mas o Bom Samaritano inverteu a pergunta: ‘se eu não parar para ajudar esse homem, o que acontecerá com ele?’ É essa a questão diante de vocês esta noite”.

Um perigoso altruísmo.

Tão perigoso que acabaria custando a Martin Luther King a própria vida. E isso foi algo que ele já havia previsto. Naquela manhã, houve uma ameaça de bomba no avião em que MLK voaria de Atlanta para Memphis. Ele sentiu que algo estava para acontecer. A conclusão de seu sermão foi profética:

“Teremos dias difíceis pela frente. Mas já não me preocupo muito com isso, pois eu estive no alto da montanha. E eu não me preocupo. Como todo mundo, eu gostaria de viver uma vida longa – a longevidade é importante. Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero fazer a vontade de Deus. E Ele me permitiu subir a montanha. E de lá eu olhei e vi a Terra Prometida. E pode ser que eu não entre nela com vocês. Mas, esta noite, quero que saibam que nós, como um povo, entraremos na Terra Prometida. E estou tão feliz esta noite; não estou preocupado com nada; não temo homem algum. Meus olhos viram a glória da vinda do Senhor.”

Menos de vinte e quatro horas depois, ele estava morto. Meu mundo foi mudado para sempre. E sou grato por isso.

Traduzido por Ronaldo Lana partir do original “He Gave His Life to Change the World

Escrito por John Piper

Fundador e professor, desiringGod.org

John Piper (@JohnPiper) fundou e é hoje professor do desiringGod.org, além de ser chanceler do Bethlehem College & Seminary. Durante 33 anos foi o pastor da Bethlehem Baptist Church, igreja localizada na cidade de Minneapolis, em Minnesota. É autor de  mais de 50 livros, inclusive de  Desiring God:Meditations of a Christian Hedonist e do mais recente  Expository Exultation: Christian Preaching as Worship.

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